O Congresso dos Milionários: quando o voto personalista enterra a democracia
Blog Olhos do Sertão
Enquanto muitos acreditam estar “votando certo” ao escolher
um candidato que parece simpático, religioso, “do bem” ou “gestor eficiente”,
esquecem, ou ignoram. E um fato elementar da política: não se vota em pessoas,
mas em partidos. Seja de forma consciente ou não, todo voto é partidário.
Essa afirmação pode soar incômoda, sobretudo num país como o
Brasil, onde a desconfiança generalizada em relação aos partidos políticos foi
cuidadosamente cultivada por décadas de campanhas midiáticas, escândalos
seletivos e narrativas antipolíticas. A consequência disso é o avanço do voto
personalista, centrado no indivíduo, não na ideologia ou no projeto político.
É esse voto personalista que nos leva, eleição após eleição,
à formação de um Congresso Nacional de milionários, empresários, fazendeiros e
representantes do grande capital, que pouco ou nada conhecem das periferias,
das comunidades ribeirinhas, dos quilombos, dos assentamentos ou das escolas
públicas.
O Personalismo como
Armadilha Política
Ao trocar o debate político por rostos sorridentes em outdoors
e jingles vazios no horário eleitoral, a sociedade perde o senso de
coletividade e passa a tratar a política como se fosse um reality show. E nesse
jogo de vaidades, quem vence é sempre o mais rico, o mais bem assessorado ou o
mais bem armado de fake news.
Mas o problema não está apenas em quem vence. Está, sobretudo, em quem esses vitoriosos passam a representar. A bancada do agronegócio, a bancada da bala, a bancada evangélica fundamentalista — todas essas forças foram eleitas com base no personalismo e, depois, se organizaram em blocos de poder dentro do Congresso. A esquerda, por outro lado, que historicamente teve projetos partidários mais sólidos, é frequentemente enfraquecida por esse mesmo fenômeno: a despolitização do voto.
Ou seja, temos as bancadas BBBBB (bancada da bala, bancada
dos bancos, bancada da bíblia, bancada da bola e bancada do boi), menos a
bancada do povo.
O Papel da Mídia e o
Mito do “Centrão”
Grande parte da responsabilidade por essa crise política é da
mídia tradicional. Desde os anos 1990, emissoras, jornais e comentaristas
políticos investiram na destruição simbólica dos partidos — principalmente os
partidos de esquerda, enquanto alimentavam a ideia de que política boa é aquela
“sem ideologia”, “pragmática” e “gestora”. Um terreno fértil para o Centrão,
essa colcha de retalhos de partidos sem identidade ideológica clara, mas com
apetite insaciável por verbas públicas e cargos.
O Centrão é a pornografia da política brasileira. Sem
pudores, transa com qualquer governo em troca de orçamento secreto,
ministérios, emendas e privilégios. Não tem fidelidade, não tem doutrina, não
tem projeto de país. E a cada eleição, se fortalece exatamente por conta da fraqueza
do voto consciente e da destruição das identidades partidárias.
Partido é Parte
A palavra “partido” vem de “parte”. Partido é parte de um
todo social. Ele deve expressar uma visão de mundo, um projeto de sociedade, um
campo de interesses. Quando você vota num partido, você está assumindo um lado
na história. Está dizendo o que pensa sobre educação, saúde, meio ambiente,
direitos trabalhistas, relações internacionais e democracia.
Quando você ignora o partido e vota apenas “na pessoa”, está
abrindo mão do debate político e entregando o poder a quem já o tem de sobra:
os donos do dinheiro, da terra, da mídia e, muitas vezes, das armas.
O que fazer?
Precisamos, urgentemente, de educação política popular.
Precisamos falar de política nas escolas, nas igrejas, nas feiras livres, nas
rádios comunitárias, nas redes sociais e nas universidades. Precisamos
desmascarar o voto “neutro”, “apartidário” ou “técnico”, porque ele é, na prática, um voto conservador
e reacionário.
E mais do que isso: precisamos valorizar os partidos que têm
história, base social, projeto nacional e compromisso com a democracia. Não há
democracia sem partidos fortes. Não há mudança sem organização coletiva.
Se queremos um Congresso menos corrupto, menos elitista e
menos fisiológico, precisamos parar de votar em “salvadores da pátria” e
começar a votar em projetos de país.
Referências:
Fernandes, Florestan. O que é Partido Político? São Paulo:
Brasiliense, 1989.
Avritzer, Leonardo. A Crise da Democracia Representativa no
Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Diário do Nordeste. Entenda o que é o Centrão e quais
partidos fazem parte. Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/pontopoder/eleicoes-2022/entenda-o-que-e-o-centrao-e-quais-partidos-fazem-parte-1.3277837
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