A entrevista concedida pelo presidente Lula à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, amplia o campo discursivo inaugurado pelo pronunciamento oficial, reposicionando o Brasil no cenário global por meio de uma performance diplomática que também opera como disputa simbólica. Como aponta Pierre Bourdieu, o discurso político é uma prática social situada, e nessa entrevista Lula mobiliza o habitus de negociador sindical para produzir legitimidade diante do público internacional, especialmente norte-americano.
Ao enfatizar que "Trump foi eleito para governar os
Estados Unidos, e não para ser imperador do mundo", Lula performa um gesto
de descolonização simbólica que desafia o poder hegemônico estadunidense, o que
Boaventura de Sousa Santos denominaria uma epistemologia do Sul em ação, pois
recusa a submissão e reivindica diálogo entre iguais. A linguagem da diplomacia
é utilizada não apenas como ferramenta de negociação, mas como encenação de
soberania discursiva.
O tempo histórico é novamente mobilizado: há uma rememoração
da longa relação bilateral (“201 anos”) e um futuro projetado de cooperação,
ameaçado por um presente de “erros” e “inverdades” que precisam ser corrigidos
pela negociação multilateral. Essa operação de articulação temporal expressa
com clareza a “gramática do tempo” de Boaventura: o passado é convocado como
capital moral, o presente é cenário de tensão, e o futuro é configurado como
horizonte de dignidade e autonomia.
Além disso, ao deslocar a questão judicial de Bolsonaro para
o campo da autonomia das instituições (“quem acusa é o Ministério Público, quem
julga é o STF”), Lula reafirma o Brasil como Estado de Direito, respondendo às
tentativas de deslegitimação por meio de uma reafirmação da separação dos
poderes, um dos pilares da modernidade jurídica que Boaventura considera
centrais para as democracias do Sul global em resistência.
Por fim, a entrevista serve para internacionalizar a
narrativa simbólica iniciada no pronunciamento, agora com linguagem mais
adaptada ao público externo, reforçando a ideia de que a disputa não é apenas
econômica, mas civilizatória, entre unilateralismo autoritário e
multilateralismo democrático.
A
entrevista entre Christiane Amanpour e o presidente Lula foi um excelente
exemplo de jornalismo internacional de qualidade e de diplomacia pública
exercida com inteligência política. A jornalista fez perguntas incisivas, pertinentes
ao contexto geopolítico, principalmente ao abordar as pressões dos EUA sobre o
Brasil e a judicialização da política. Isso permitiu a Lula demonstrar domínio
discursivo e reafirmar princípios centrais da soberania nacional.
Novamente enfatizo: a resposta emblemática “Trump não foi eleito para
ser imperador do mundo” condensa, com
força simbólica, a recusa de uma ordem internacional unipolar. Nesse momento,
Lula transforma a entrevista em um palco diplomático, onde o Brasil se
apresenta não como satélite, mas como ator autônomo e com voz própria.
Essa troca entre jornalista e presidente,
portanto, encarna o que Pierre Bourdieu chamaria de um jogo de posições no
campo simbólico. Amanpour, com legitimidade no campo jornalístico global, abre
espaço para que Lula reposicione o Brasil no campo político internacional. E
isso se dá, como diria Boaventura de Sousa Santos, dentro da “gramática da
dignidade” em que o Sul global fala com sua própria voz, sem subalternidade.
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