O Mito do Voto Personalista e o Congresso de Milionários
No Brasil, é comum ouvir: “Eu não voto em partido, voto em
pessoas.” Essa afirmação, apesar de parecer um exercício de consciência cívica,
é uma armadilha política. Esconde o funcionamento real do sistema eleitoral e
acaba favorecendo a perpetuação de um Congresso dominado por interesses
econômicos e partidos fisiológicos, muitas vezes controlados por milionários.
A ilusão do voto direto
em nomes
Por mais que o eleitor diga que “vota em fulano”, na prática,
ele digita o número de um partido ou o número de um candidato associado a um
partido. Ou seja, não existe voto desvinculado da legenda. Mesmo quando se vota
em uma “pessoa”, esse voto alimenta o desempenho do partido nas urnas.
Sistema proporcional e
legenda partidária
No caso dos deputados federais, estaduais e vereadores, o
Brasil adota o sistema proporcional com lista aberta. Isso significa que:
O voto no candidato conta para o cálculo do quociente
eleitoral, que define quantas cadeiras cada partido terá.
Os votos vão para a legenda, ajudando o partido a atingir a
quantidade necessária para eleger mais representantes.
Assim, votar “em uma pessoa” é, na prática, votar em um
projeto partidário ou na ausência dele.
Partidos fracos, Congresso dominado
Essa cultura do
personalismo eleitoral:
Enfraquece os partidos programáticos, que têm propostas
ideológicas claras (de esquerda, centro ou direita).
Fortalece partidos de aluguel, que servem a interesses econômicos e negociam apoio no varejo político.
Além disso, essa
lógica:
Favorece milionários que podem financiar suas próprias campanhas.
Impede a renovação popular no Congresso, pois candidatos com
menos recursos e pouca visibilidade enfrentam desvantagens enormes.
Cláusula de barreira e
Fundo Eleitoral
Os partidos que não atingem um número mínimo de votos:
Perdem o direito ao Fundo Partidário e ao tempo de TV/rádio,
ferramentas essenciais para a disputa democrática.
Tornam-se reféns de coligações oportunistas ou simplesmente
desaparecem do debate político.
O poder das bancadas e
lideranças
Deputados e senadores atuam dentro da lógica partidária:
Seguem orientações de bancada.
Disputam cargos e emendas conforme seu alinhamento com a
liderança partidária.
As comissões mais importantes (como CCJ, orçamento, saúde,
educação) são controladas por acordos entre partidos, não por “boas intenções
pessoais”.
Conclusão: o
personalismo é um atalho para o retrocesso
A crença no voto exclusivamente pessoal não apenas desinforma
o eleitor, mas também fragiliza a democracia representativa. Ao negar o papel
dos partidos, o eleitor enfraquece os mecanismos de fiscalização, coerência
programática e construção de políticas públicas de longo prazo.
É urgente resgatar a importância dos partidos políticos, não
como agremiações corruptas, mas como expressões organizadas de interesses
sociais, ideológicos e programáticos. Votar em pessoas não basta, é preciso
votar em ideias, projetos e compromissos coletivos.
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