Translate / Tradutor

domingo, 6 de julho de 2025

O Mito do Voto Personalista e o Congresso de Milionários

 O Mito do Voto Personalista e o Congresso de Milionários

No Brasil, é comum ouvir: “Eu não voto em partido, voto em pessoas.” Essa afirmação, apesar de parecer um exercício de consciência cívica, é uma armadilha política. Esconde o funcionamento real do sistema eleitoral e acaba favorecendo a perpetuação de um Congresso dominado por interesses econômicos e partidos fisiológicos, muitas vezes controlados por milionários.

A ilusão do voto direto em nomes

Por mais que o eleitor diga que “vota em fulano”, na prática, ele digita o número de um partido ou o número de um candidato associado a um partido. Ou seja, não existe voto desvinculado da legenda. Mesmo quando se vota em uma “pessoa”, esse voto alimenta o desempenho do partido nas urnas.

Sistema proporcional e legenda partidária

No caso dos deputados federais, estaduais e vereadores, o Brasil adota o sistema proporcional com lista aberta. Isso significa que:

O voto no candidato conta para o cálculo do quociente eleitoral, que define quantas cadeiras cada partido terá.

Os votos vão para a legenda, ajudando o partido a atingir a quantidade necessária para eleger mais representantes.

Assim, votar “em uma pessoa” é, na prática, votar em um projeto partidário ou na ausência dele.

Partidos fracos, Congresso dominado

Essa cultura do personalismo eleitoral:

Enfraquece os partidos programáticos, que têm propostas ideológicas claras (de esquerda, centro ou direita).

Fortalece partidos de aluguel, que servem a interesses econômicos e negociam apoio no varejo político.

Além disso, essa lógica:

Favorece milionários que podem financiar suas próprias campanhas.

Impede a renovação popular no Congresso, pois candidatos com menos recursos e pouca visibilidade enfrentam desvantagens enormes.

Cláusula de barreira e Fundo Eleitoral

Os partidos que não atingem um número mínimo de votos:

Perdem o direito ao Fundo Partidário e ao tempo de TV/rádio, ferramentas essenciais para a disputa democrática.

Tornam-se reféns de coligações oportunistas ou simplesmente desaparecem do debate político.

O poder das bancadas e lideranças

Deputados e senadores atuam dentro da lógica partidária:

Seguem orientações de bancada.

Disputam cargos e emendas conforme seu alinhamento com a liderança partidária.

As comissões mais importantes (como CCJ, orçamento, saúde, educação) são controladas por acordos entre partidos, não por “boas intenções pessoais”.

Conclusão: o personalismo é um atalho para o retrocesso

A crença no voto exclusivamente pessoal não apenas desinforma o eleitor, mas também fragiliza a democracia representativa. Ao negar o papel dos partidos, o eleitor enfraquece os mecanismos de fiscalização, coerência programática e construção de políticas públicas de longo prazo.

É urgente resgatar a importância dos partidos políticos, não como agremiações corruptas, mas como expressões organizadas de interesses sociais, ideológicos e programáticos. Votar em pessoas não basta, é preciso votar em ideias, projetos e compromissos coletivos.

Nenhum comentário: