Soberania, Verdade e Tempo Histórico: análise do pronunciamento Lula da Silva à luz de Bourdieu e Boaventura de Sousa Santos
O presente ensaio analisa o pronunciamento do presidente do Brasil frente à imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos, à luz das teorias do poder simbólico de Pierre Bourdieu e da gramática do tempo de Boaventura de Sousa Santos. Identificamos como o discurso não apenas responde à conjuntura internacional, mas também constrói uma narrativa simbólica sobre soberania, verdade e futuro. Trata-se de uma resposta discursiva que disputa sentidos no campo político global e nacional, reorganizando temporalidades e produzindo alianças imaginadas.
1. Introdução
O
pronunciamento analisado foi proferido após o anúncio da taxacão de produtos
brasileiros por parte dos Estados Unidos. Longe de se restringir ao campo
econômico, o discurso revela-se um instrumento de produção simbólica e de
reconfiguração das temporalidades sociais. Para tal, mobilizamos as categorias
de Pierre Bourdieu sobre poder simbólico e de Boaventura de Sousa Santos sobre
a gramática do tempo.
2. O
Poder Simbólico e a Performatividade do Discurso
Para
Bourdieu (1996), o poder simbólico é a capacidade de impor visões de mundo que
são percebidas como legítimas, frequentemente de forma invisível. Ao afirmar
que "o Brasil tem um único dono: o povo brasileiro" e que
"ninguém está acima da lei", o presidente realiza um ato de fala
performativo que busca reafirmar a soberania nacional.
A
acusação de "chantagem" e a referência a "informações
falsas" reforçam a tentativa de manter o monopólio da nomeação legítima,
deslegitimando a narrativa americana e impondo uma versão considerada
"verdadeira". A criação da figura do "traidor da pátria" opera
como dispositivo simbólico de exclusão e moralização do campo político interno.
3. A Gramática do Tempo e a
Reorganização das Temporalidades
Boaventura
de Sousa Santos (2006) propõe uma gramática do tempo em que passado, presente e
futuro são reconfigurados em uma luta política de sentidos. O pronunciamento
mobiliza três temporalidades:
ü O passado como tempo de isolamento e
submissão ("encontramos o Brasil isolado do mundo");
ü O presente como tempo de luta e
resistência ativa ("estamos juntos na defesa do Brasil");
ü O futuro como horizonte ameaçado
pelas potências estrangeiras ("não aceitaremos ataques ao Pix").
O
tempo do futuro é construído como campo simbólico de disputa: o Pix, o meio
ambiente e o sistema jurídico brasileiro tornam-se signos de um porvir
soberano, em risco de ser capturado pelo neocolonialismo tecnológico e
econômico.
4. A Confluência entre Bourdieu e
Boaventura: verdade, tempo e legitimidade.
A relação entre o poder simbólico e a
gramática do tempo se expressa na capacidade do discurso de produzir não apenas
um efeito imediato, mas também de organizar a memória social e a expectativa
coletiva. A "verdade" evocada pelo presidente é, em si, um artefato
simbólico com pretensão de hegemonia, que se ancora na legitimidade popular e
na urgência da defesa nacional.
5.
Considerações Finais
O
discurso presidencial é mais do que uma resposta diplomática. Ele é um gesto de
produção simbólica, de organização das temporalidades e de mobilização afetiva
do povo. Ele disputa o presente, reconstrói o passado e protege um futuro
ameaçado.
Referências:
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
BOURDIEU, Pierre. Linguagem e poder simbólico. São Paulo: Unesp, 1996. SANTOS,
Boaventura de Sousa. A Gramática do Tempo: para uma nova cultura política. São
Paulo: Cortez, 2006.
Minhas amigas e meus amigos,
Fomos surpreendidos, na última semana, por uma carta do presidente norte-americano anunciando a taxação dos produtos brasileiros em 50%, a partir de 1º de agosto.
O Brasil sempre esteve aberto ao diálogo. Fizemos mais de 10 reuniões com o governo dos Estados Unidos, e encaminhamos, em 16 de maio, uma proposta de negociação. Esperávamos uma resposta, e o que veio foi uma chantagem inaceitável, em forma de ameaças às instituições brasileiras, e com informações falsas sobre o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos.
Contamos com um Poder Judiciário independente. No Brasil, respeitamos o devido processo legal, os princípios da presunção da inocência, do contraditório e da ampla defesa. Tentar interferir na justiça brasileira é um grave atentado à soberania nacional.
Só uma pátria soberana é capaz de gerar empregos, combater as desigualdades, garantir saúde e educação, promover o desenvolvimento sustentável e criar as oportunidades que as pessoas precisam para crescer na vida.
Minha indignação é ainda maior por saber que esse ataque ao Brasil tem o apoio de alguns políticos brasileiros. São verdadeiros traidores da pátria. Apostam no quanto pior, melhor. Não se importam com a economia do país e os danos causados ao nosso povo.
Minhas amigas e meus amigos, a defesa da nossa soberania também se aplica à atuação das plataformas digitais estrangeiras no Brasil. Para operar no nosso país, todas as empresas nacionais e estrangeiras são obrigadas a cumprir as regras.
No Brasil, ninguém — ninguém — está acima da lei. É preciso proteger as famílias brasileiras de indivíduos e organizações que se utilizam das redes digitais para promover golpes e fraudes, cometer crime de racismo, incentivar a violência contra as mulheres e atacar a democracia, além de alimentar o ódio, violência e bullying entre crianças e adolescentes, em alguns casos levando à morte, e desacreditar as vacinas, trazendo de volta doenças há muito tempo erradicadas.
Minhas amigas e meus amigos,
Estamos nos reunindo com representantes dos setores produtivos, sociedade civil e sindicatos. Essa é uma grande ação conjunta que envolve a indústria, o comércio, o setor de serviços, o setor agrícola e os trabalhadores.
Estamos juntos na defesa do Brasil. E faremos isso de cabeça erguida, seguindo o exemplo de cada brasileiro e cada brasileira que acorda cedo, e vai à luta para trabalhar, cuidar da família e ajudar o Brasil a crescer.
Seguiremos apostando nas boas relações diplomáticas e comerciais, não apenas com os Estados Unidos, mas com todos os países do mundo.
Minhas amigas e meus amigos,
A primeira vítima de um mundo sem regras é a verdade. São falsas as alegações sobre práticas comerciais desleais brasileiras. Os Estados Unidos acumulam, há mais de 15 anos, robusto superávit comercial de US$ 410 bilhões de dólares.
O Brasil hoje é referência mundial na defesa do meio ambiente. Em dois anos, já reduzimos pela metade o desmatamento da Amazônia. E estamos trabalhando para zerar o desmatamento até 2030.
Além disso, o Pix é do Brasil. Não aceitaremos ataques ao Pix, que é um patrimônio do nosso povo. Temos um dos sistemas de pagamento mais avançados do mundo, e vamos protegê-lo.
Minhas amigas e meus amigos,
Quando tomamos posse na Presidência da República, em 2023, encontramos o Brasil isolado do mundo. Nosso governo, em apenas dois anos e meio, abriu 379 novos mercados para os produtos brasileiros no exterior.
Estamos construindo parcerias comerciais com a União Europeia, a Ásia, a África e nossos vizinhos da América Latina e do Caribe.
Se necessário, usaremos todos os instrumentos legais para defender a nossa economia. Desde recursos à Organização Mundial do Comércio até a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional.
Minhas amigas e meus amigos,
Não há vencedores em guerras tarifárias. Somos um país de paz, sem inimigos. Acreditamos no multilateralismo e na cooperação entre as nações.
Mas que ninguém se esqueça: o Brasil tem um único dono — o povo brasileiro.
Muito obrigado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário