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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Crise, soberania e oportunidade: como o Brasil pode sair fortalecido do conflito com os EUA e da reconfiguração geopolítica global

Crise, soberania e oportunidade: como o Brasil pode sair fortalecido do conflito com os EUA e da reconfiguração geopolítica global

Entre o declínio da ordem unipolar, o avanço da desdolarização e o surgimento de novos polos de poder, o Brasil tem a chance histórica de retomar seu projeto nacional de desenvolvimento soberano

 Lula e seu governo, principalmente ministros progressistas, precisam perceber que grandes oportunidades o trumpismo e o bolsonarismo criaram para o país e seu governo.

O momento exige que sejamos maiores que nossos medos. Não estamos diante apenas de uma crise: estamos diante de uma chance histórica.

O cenário geopolítico atual abre espaços inéditos para o Brasil redefinir seu lugar no mundo, com base em soberania, nacionalismo construtivo, desenvolvimento tecnológico autônomo e integração Sul-Sul. O embate entre o trumpismo e o governo Lula acabou, paradoxalmente, gerando uma janela de oportunidades para reposicionar o Brasil diante da crise global.

Então, este texto está fundamentado na conjuntura atual, com referências ao poder simbólico de Bourdieu, à gramática do tempo de Boaventura de Sousa Santos, e aos pensamentos estratégicos e geopolíticos de Samuel Pinheiro Guimarães, Luiz Alberto Moniz Bandeira e outros pensadores nacionais. O texto articula a análise conjuntural com uma proposta de projeto nacional soberano.

Entre a Crise e a Soberania: como o Brasil pode sair fortalecido na Nova Ordem Mundial?

"Os símbolos têm força. E a luta pelo poder simbólico é, antes de tudo, a luta para definir o que deve ser reconhecido como legítimo." (Pierre Bourdieu)

1. O conflito não é comercial: é simbólico, geopolítico e civilizacional

A recente ofensiva tarifária de Donald Trump contra o Brasil não pode ser lida apenas como uma manobra de política comercial protecionista. Ela revela o que Pierre Bourdieu chamaria de disputa pelo poder simbólico global: o lugar que cada país ocupa no imaginário da ordem mundial. O Brasil, ao se alinhar aos BRICS e defender uma multipolaridade real, tornou-se alvo da máquina de desestabilização do imperialismo ocidental, que não aceita concorrentes simbólicos, econômicos ou políticos.

Como alertava Luiz Alberto Moniz Bandeira, os Estados Unidos não hesitam em utilizar sanções econômicas, guerra de informação e manipulação midiática para manter sua hegemonia. E como interpreta Samuel Pinheiro Guimarães, a dominação imperial contemporânea se dá não apenas pela força bruta, mas pelo controle das regras do jogo internacional, incluindo o comércio, o sistema financeiro, os organismos multilaterais e, sobretudo, a ideologia.

2. A gramática do tempo: crise como oportunidade para um novo projeto nacional

Vivemos um tempo que Boaventura de Sousa Santos definiria como bifurcação civilizacional. A crise do modelo unipolar e neoliberal abre espaço para gramáticas alternativas de poder, tempo e futuro. O Brasil, país de dimensões continentais, com recursos naturais estratégicos, população diversa e posição geopolítica privilegiada, tem agora a oportunidade de abandonar a condição periférica de fornecedor de commodities e retomar seu projeto de nação soberana.

Essa janela histórica exige que saibamos ler o tempo com os olhos da história e não com os óculos do imediatismo mercantil. A disputa com Trump e a extrema-direita global não é apenas contra um governo, mas contra um modelo de mundo centrado no domínio do Norte Global sobre os povos do Sul. É chegada a hora de construir um Brasil que converse de igual para igual com o mundo.

3. Soberania como projeto: defesa, tecnologia e autonomia

A resposta brasileira deve ser estratégica e estrutural. Não basta indignação: é preciso visão. O país precisa retomar projetos interrompidos ou sabotados historicamente, como:

O programa aeroespacial nacional e a Base de Alcântara como plataforma autônoma.

A reconstrução da Avibrás, símbolo da inteligência bélica nacional.

A valorização da Embraer, que representa excelência tecnológica e capacidade industrial soberana.

Investimento em drones, IA militar, mísseis e energia nuclear com fins pacíficos, como elementos de dissuasão e afirmação geopolítica.

Essas iniciativas não significam militarismo agressivo, mas o fortalecimento da capacidade dissuasória soberana, tal como defendia Moniz Bandeira ao analisar as razões da intervenção externa contra países que ousaram buscar autonomia estratégica.

4. Desdolarização e integração Sul-Sul: o mundo multipolar já começou

A crise do dólar como moeda hegemônica é parte do colapso da ordem geopolítica unipolar. As economias emergentes, lideradas por China, Rússia, Índia e outros BRICS, têm se articulado em sistemas alternativos de pagamento, investimento e comércio. O Brasil tem agora a chance de:

Redirecionar sua produção para parcerias estratégicas com países do Sul Global, como Indonésia, África do Sul, Irã, Nigéria, Egito, países árabes e da América do Sul.

Fortalecer acordos bilaterais em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar.

Criar, junto aos BRICS e ao G77, um banco de desenvolvimento robusto, uma rede de pesquisa científica integrada e um polo de tecnologia soberana.

Ao investir na integração Sul-Sul, o Brasil se liberta do papel de sócio menor em um sistema global desequilibrado e assume o papel de ponte diplomática entre blocos, mediador de paz e construtor de alternativas.

5. Patriotismo progressista: entre Bourdieu e o Brasil profundo

Para que esse projeto avance, é preciso reconstruir o sentido simbólico da Nação. A disputa não é só geopolítica ou econômica, mas simbólica. O Brasil foi sequestrado por uma retórica de “patriotismo” farsante, que usa símbolos nacionais para legitimar a subserviência ao capital estrangeiro e ao imperialismo.

O verdadeiro patriotismo, o patriotismo progressista  se constrói com:

ü  Soberania alimentar, energética, digital e científica;

ü  Reindustrialização verde com distribuição de renda;

ü  Defesa da educação pública, técnica e tecnológica como motor do desenvolvimento;

ü  Valorização do povo brasileiro e sua cultura popular, como base de um projeto civilizacional original.

A luta pelo poder simbólico nacional é, portanto, também uma disputa de imaginários. Como Bourdieu nos ensinou, o poder de nomear o mundo é o poder de moldá-lo. O Brasil precisa recuperar o direito de dizer seu próprio nome no concerto das nações.

6. O falso patriotismo como violência simbólica: Bourdieu contra o bolsonarismo

O bolsonarismo transformou o patriotismo em instrumento de dominação simbólica, operando como aquilo que Pierre Bourdieu chamaria de violência simbólica consentida: a imposição de um imaginário que, embora ilusório, é aceito e reproduzido pelos próprios dominados. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, por exemplo, carrega em si uma hierarquia de valores excludente, autoritária e antidemocrática, que reduz a nação a uma caricatura ideológica.

Sob a máscara do “amor à pátria”, o bolsonarismo usurpou símbolos nacionais (a bandeira, o hino, a camisa da seleção) e os converteu em instrumentos de exclusão e violência moral, criando um campo simbólico onde só há espaço para os “patriotas de direita”. Todos os que pensam diferente são tachados de “comunistas”, “traidores” ou “inimigos da nação”. É a lógica do "nós contra eles" aplicada à ideia de Brasil.

Com isso, a retórica de “pátria, família e Deus” que remonta à ideologia fascista do século XX foi reciclada para legitimar a destruição de políticas públicas, o negacionismo científico, o desprezo pela vida alheia e a submissão do Brasil aos interesses do capital financeiro internacional e do imperialismo norte-americano. Nada mais antinacional, antipopular e antipatriótico.

7. Reconstruir os símbolos da nação: o povo no centro do Brasil

A luta que temos pela frente é reconstruir os símbolos nacionais a partir do povo, e não da elite  fundamentalista, neoliberalis e entreguista que sequestrou a ideia de Brasil. É preciso reapropriar-se das palavras que foram distorcidas:

“Pátria” não é um slogan bélico, mas o território vivido, habitado, protegido por seus povos.

“Família” não é um modelo único e opressor, mas todas as formas de afeto, cuidado e solidariedade entre brasileiros.

“Deus” não é um cabo eleitoral, mas um símbolo espiritual que jamais pode justificar a injustiça, a exclusão ou o ódio.

“Patriotismo” é garantir saúde, educação, segurança alimentar, soberania energética, dignidade para os que trabalham e vivem neste país.

Um verdadeiro patriotismo popular e soberano deve ser afirmado com base em:

Soberania territorial e ambiental (Amazônia, Cerrado, águas e minérios).

Soberania científica e tecnológica (pesquisa, inovação, indústria).

Nacionalismo econômico e solidário (produção interna, empregos e bem-estar).

Desenvolvimentismo verde, justo e distributivo.

Cultura popular, memória e diversidade como pilares simbólicos da nação.

Só assim será possível superar a falsa dicotomia entre globalismo neoliberal e nacionalismo autoritário, colocando no lugar um projeto nacional democrático, popular e progressista, enraizado na história, na cultura e nas potencialidades do Brasil real.

8. Conclusão: um Brasil do tamanho do seu povo

O ataque de Trump ao Brasil, na verdade, escancarou o reconhecimento de que somos fortes  e perigosamente autônomos aos olhos do império. O momento exige que sejamos maiores que nossos medos. Não estamos diante apenas de uma crise: estamos diante de uma chance histórica.

O Brasil precisa se fortalecer não para enfrentar o mundo, mas para conversar de igual para igual com ele. E isso exige um novo projeto de país: soberano, justo, plural e protagonista no Sul Global. Um Brasil que pare de se curvar ao Norte e comece a caminhar com os olhos voltados para o seu povo e os pés fincados em seu território

9. Referências bibliográficas e teóricas

Bourdieu, Pierre

O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2004.

Fundamenta a análise sobre como o bolsonarismo opera por meio da violência simbólica e da imposição de significados distorcidos sobre o Brasil e o patriotismo.

Boaventura de Sousa Santos

A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política. São Paulo: Cortez, 2006.

Ajuda a entender o tempo histórico como espaço de disputas entre projetos civilizatórios, abrindo a leitura para alternativas ao neoliberalismo e ao fascismo simbólico.

Samuel Pinheiro Guimarães

Quinhentos Anos de Periferia. Porto Alegre: L&PM, 1999.

Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006.

Aponta os caminhos para uma política externa soberana e crítica ao imperialismo, destacando a importância dos BRICS e da integração Sul-Sul.

Luiz Alberto Moniz Bandeira

A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensões Estratégicas dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Formação do Império Americano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

Fundamenta a crítica à geoestratégia de dominação dos EUA e ao uso da guerra econômica como arma contra nações em desenvolvimento.

Darcy Ribeiro

O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

A base para reconstruir a ideia de nação a partir do povo, de sua cultura, sua luta e seu território.

José Luís Fiori

O Poder Global. São Paulo: Boitempo, 2007.

Analisa o sistema mundial de poder e as disputas emergentes por liderança, com ênfase no papel dos BRICS

 

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