Crise, soberania e oportunidade: como o Brasil pode sair fortalecido do conflito com os EUA e da reconfiguração geopolítica global
Entre o declínio da ordem unipolar, o avanço da desdolarização e o surgimento de novos polos de poder, o Brasil tem a chance histórica de retomar seu projeto nacional de desenvolvimento soberano
O momento exige que sejamos maiores que nossos medos. Não estamos diante apenas de uma crise: estamos diante de uma chance histórica.
O cenário geopolítico atual abre espaços inéditos para o
Brasil redefinir seu lugar no mundo, com base em soberania, nacionalismo
construtivo, desenvolvimento tecnológico autônomo e integração Sul-Sul. O
embate entre o trumpismo e o governo Lula acabou, paradoxalmente, gerando uma
janela de oportunidades para reposicionar o Brasil diante da crise global.
Então, este texto está fundamentado na conjuntura atual, com
referências ao poder simbólico de Bourdieu, à gramática do tempo de Boaventura
de Sousa Santos, e aos pensamentos estratégicos e geopolíticos de Samuel
Pinheiro Guimarães, Luiz Alberto Moniz Bandeira e outros pensadores nacionais.
O texto articula a análise conjuntural com uma proposta de projeto nacional
soberano.
Entre a Crise e a Soberania: como o Brasil pode sair fortalecido
na Nova Ordem Mundial?
"Os símbolos têm força. E a luta pelo poder simbólico é,
antes de tudo, a luta para definir o que deve ser reconhecido como
legítimo." (Pierre Bourdieu)
1. O conflito não é
comercial: é simbólico, geopolítico e civilizacional
A recente ofensiva tarifária de Donald Trump contra o Brasil
não pode ser lida apenas como uma manobra de política comercial protecionista.
Ela revela o que Pierre Bourdieu chamaria de disputa pelo poder simbólico
global: o lugar que cada país ocupa no imaginário da ordem mundial. O Brasil,
ao se alinhar aos BRICS e defender uma multipolaridade real, tornou-se alvo da
máquina de desestabilização do imperialismo ocidental, que não aceita
concorrentes simbólicos, econômicos ou políticos.
Como alertava Luiz Alberto Moniz Bandeira, os Estados Unidos não hesitam em utilizar sanções econômicas, guerra de informação e manipulação midiática para manter sua hegemonia. E como interpreta Samuel Pinheiro Guimarães, a dominação imperial contemporânea se dá não apenas pela força bruta, mas pelo controle das regras do jogo internacional, incluindo o comércio, o sistema financeiro, os organismos multilaterais e, sobretudo, a ideologia.
2. A gramática do
tempo: crise como oportunidade para um novo projeto nacional
Vivemos um tempo que Boaventura de Sousa Santos definiria
como bifurcação civilizacional. A crise do modelo unipolar e neoliberal abre
espaço para gramáticas alternativas de poder, tempo e futuro. O Brasil, país de
dimensões continentais, com recursos naturais estratégicos, população diversa e
posição geopolítica privilegiada, tem agora a oportunidade de abandonar a
condição periférica de fornecedor de commodities e retomar seu projeto de nação
soberana.
Essa janela histórica exige que saibamos ler o tempo com os
olhos da história e não com os óculos do imediatismo mercantil. A disputa com
Trump e a extrema-direita global não é apenas contra um governo, mas contra um
modelo de mundo centrado no domínio do Norte Global sobre os povos do Sul. É
chegada a hora de construir um Brasil que converse de igual para igual com o
mundo.
3. Soberania como
projeto: defesa, tecnologia e autonomia
A resposta brasileira deve ser estratégica e estrutural. Não
basta indignação: é preciso visão. O país precisa retomar projetos
interrompidos ou sabotados historicamente, como:
O programa aeroespacial nacional e a Base de Alcântara como
plataforma autônoma.
A reconstrução da Avibrás, símbolo da inteligência bélica
nacional.
A valorização da Embraer, que representa excelência
tecnológica e capacidade industrial soberana.
Investimento em drones, IA militar, mísseis e energia nuclear
com fins pacíficos, como elementos de dissuasão e afirmação geopolítica.
Essas iniciativas não significam militarismo agressivo, mas o
fortalecimento da capacidade dissuasória soberana, tal como defendia Moniz
Bandeira ao analisar as razões da intervenção externa contra países que ousaram
buscar autonomia estratégica.
4. Desdolarização e
integração Sul-Sul: o mundo multipolar já começou
A crise do dólar como moeda hegemônica é parte do colapso da
ordem geopolítica unipolar. As economias emergentes, lideradas por China,
Rússia, Índia e outros BRICS, têm se articulado em sistemas alternativos de
pagamento, investimento e comércio. O Brasil tem agora a chance de:
Redirecionar sua produção para parcerias estratégicas com
países do Sul Global, como Indonésia, África do Sul, Irã, Nigéria, Egito,
países árabes e da América do Sul.
Fortalecer acordos bilaterais em moedas locais, reduzindo a
dependência do dólar.
Criar, junto aos BRICS e ao G77, um banco de desenvolvimento
robusto, uma rede de pesquisa científica integrada e um polo de tecnologia
soberana.
Ao investir na integração Sul-Sul, o Brasil se liberta do
papel de sócio menor em um sistema global desequilibrado e assume o papel de ponte
diplomática entre blocos, mediador de paz e construtor de alternativas.
5. Patriotismo
progressista: entre Bourdieu e o Brasil profundo
Para que esse projeto avance, é preciso reconstruir o sentido
simbólico da Nação. A disputa não é só geopolítica ou econômica, mas simbólica.
O Brasil foi sequestrado por uma retórica de “patriotismo” farsante, que usa
símbolos nacionais para legitimar a subserviência ao capital estrangeiro e ao
imperialismo.
O verdadeiro patriotismo, o patriotismo progressista se constrói com:
ü Soberania alimentar, energética,
digital e científica;
ü Reindustrialização verde com
distribuição de renda;
ü Defesa da educação pública, técnica e
tecnológica como motor do desenvolvimento;
ü Valorização do povo brasileiro e sua
cultura popular, como base de um projeto civilizacional original.
A luta pelo poder simbólico nacional é, portanto, também uma
disputa de imaginários. Como Bourdieu nos ensinou, o poder de nomear o mundo é
o poder de moldá-lo. O Brasil precisa recuperar o direito de dizer seu próprio
nome no concerto das nações.
6. O falso patriotismo
como violência simbólica: Bourdieu contra o bolsonarismo
O bolsonarismo transformou o patriotismo em instrumento de
dominação simbólica, operando como aquilo que Pierre Bourdieu chamaria de violência
simbólica consentida: a imposição de um imaginário que, embora ilusório, é
aceito e reproduzido pelos próprios dominados. O slogan “Brasil acima de tudo,
Deus acima de todos”, por exemplo, carrega em si uma hierarquia de valores
excludente, autoritária e antidemocrática, que reduz a nação a uma caricatura
ideológica.
Sob a máscara do “amor à pátria”, o bolsonarismo usurpou
símbolos nacionais (a bandeira, o hino, a camisa da seleção) e os converteu em instrumentos
de exclusão e violência moral, criando um campo simbólico onde só há espaço
para os “patriotas de direita”. Todos os que pensam diferente são tachados de
“comunistas”, “traidores” ou “inimigos da nação”. É a lógica do "nós
contra eles" aplicada à ideia de Brasil.
Com isso, a retórica de “pátria, família e Deus” que remonta
à ideologia fascista do século XX foi reciclada para legitimar a destruição de
políticas públicas, o negacionismo científico, o desprezo pela vida alheia e a
submissão do Brasil aos interesses do capital financeiro internacional e do
imperialismo norte-americano. Nada mais antinacional, antipopular e
antipatriótico.
7. Reconstruir os
símbolos da nação: o povo no centro do Brasil
A luta que temos pela frente é reconstruir os símbolos
nacionais a partir do povo, e não da elite fundamentalista, neoliberalis e entreguista
que sequestrou a ideia de Brasil. É preciso reapropriar-se das palavras que
foram distorcidas:
“Pátria” não é um slogan bélico, mas o território vivido,
habitado, protegido por seus povos.
“Família” não é um modelo único e opressor, mas todas as
formas de afeto, cuidado e solidariedade entre brasileiros.
“Deus” não é um cabo eleitoral, mas um símbolo espiritual que
jamais pode justificar a injustiça, a exclusão ou o ódio.
“Patriotismo” é garantir saúde, educação, segurança
alimentar, soberania energética, dignidade para os que trabalham e vivem neste
país.
Um verdadeiro patriotismo popular e soberano deve ser
afirmado com base em:
Soberania territorial e ambiental (Amazônia, Cerrado, águas e
minérios).
Soberania científica e tecnológica (pesquisa, inovação,
indústria).
Nacionalismo econômico e solidário (produção interna,
empregos e bem-estar).
Desenvolvimentismo verde, justo e distributivo.
Cultura popular, memória e diversidade como pilares
simbólicos da nação.
Só assim será possível superar a falsa dicotomia entre
globalismo neoliberal e nacionalismo autoritário, colocando no lugar um projeto
nacional democrático, popular e progressista, enraizado na história, na cultura
e nas potencialidades do Brasil real.
8. Conclusão: um Brasil
do tamanho do seu povo
O ataque de Trump ao Brasil, na verdade, escancarou o
reconhecimento de que somos fortes e
perigosamente autônomos aos olhos do império. O momento exige que sejamos
maiores que nossos medos. Não estamos diante apenas de uma crise: estamos
diante de uma chance histórica.
O Brasil precisa se fortalecer não para enfrentar o mundo,
mas para conversar de igual para igual com ele. E isso exige um novo projeto de
país: soberano, justo, plural e protagonista no Sul Global. Um Brasil que pare
de se curvar ao Norte e comece a caminhar com os olhos voltados para o seu povo
e os pés fincados em seu território
9. Referências
bibliográficas e teóricas
Bourdieu, Pierre
O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva,
2004.
Fundamenta a análise sobre como o bolsonarismo opera por meio
da violência simbólica e da imposição de significados distorcidos sobre o
Brasil e o patriotismo.
Boaventura de Sousa Santos
A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política. São
Paulo: Cortez, 2006.
Ajuda a entender o tempo histórico como espaço de disputas
entre projetos civilizatórios, abrindo a leitura para alternativas ao
neoliberalismo e ao fascismo simbólico.
Samuel Pinheiro Guimarães
Quinhentos Anos de Periferia. Porto Alegre: L&PM, 1999.
Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes. Rio de Janeiro:
Contraponto, 2006.
Aponta os caminhos para uma política externa soberana e
crítica ao imperialismo, destacando a importância dos BRICS e da integração
Sul-Sul.
Luiz Alberto Moniz Bandeira
A Segunda Guerra Fria: Geopolítica e Dimensões Estratégicas
dos EUA. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
Formação do Império Americano. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2005.
Fundamenta a crítica à geoestratégia de dominação dos EUA e
ao uso da guerra econômica como arma contra nações em desenvolvimento.
Darcy Ribeiro
O Povo Brasileiro: A Formação e o Sentido do Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995.
A base para reconstruir a ideia de nação a partir do povo, de
sua cultura, sua luta e seu território.
José Luís Fiori
O Poder Global. São Paulo: Boitempo, 2007.
Analisa o sistema mundial de poder e as disputas emergentes
por liderança, com ênfase no papel dos BRICS
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