Translate / Tradutor

terça-feira, 8 de julho de 2025

Soberania ou Vassalagem: a guerra simbólica, cultural e temporal na luta de classes brasileira

1. Introdução: o tempo da luta, a luta pelo tempo

Vivemos um momento histórico em que o Brasil novamente se encontra na antessala de um golpe, como em 2015-2016. O cerco ao governo Lula não é só econômico ou institucional, é simbólico, ideológico e geopolítico. O que está em disputa é a soberania nacional frente a um império decadente, porém ainda poderoso, que utiliza a mídia, o capital financeiro e a política externa dos EUA como instrumentos de controle global.

E mais uma vez, como nos tempos de Vargas, Jango, Lula I e II, Dilma, Lula III ou Allende no Chile, o povo e seu projeto estão sob ataque das oligarquias locais aliadas às elites internacionais.

Para compreender esse cenário, precisamos de lentes críticas. E é nesse ponto que nos ajudam Antonio Gramsci, Pierre Bourdieu e Boaventura de Sousa Santos.

2. Gramsci: hegemonia, guerra de posição e o papel da comunicação

Gramsci nos ensinou que a dominação não se sustenta apenas pela força, mas pela hegemonia, ou seja, pela capacidade de uma classe impor seus valores, costumes e ideias como se fossem universais, naturais e inevitáveis.

No Brasil de hoje, isso significa:

A naturalização da desigualdade como “mérito”.

A criminalização da política popular como “corrupção”.

A adoração de empresários bilionários como “heróis”.

A colonização do imaginário através de igrejas, mídia e redes sociais.

A luta do povo, portanto, deve ser uma “guerra de posição”: lenta, estratégica, disputando corações, mentes, símbolos e linguagens.

O PT e os movimentos populares precisam reocupar este território simbólico, cultural e espiritual.

3. Bourdieu: o poder simbólico e a violência invisível da elite

Pierre Bourdieu aprofunda essa ideia ao explicar que o poder simbólico é o poder de nomear, legitimar e definir a realidade. Quem controla os meios simbólicos, controla a própria percepção das coisas.

A elite brasileira e os tentáculos do capital estrangeiro exercem hoje esse poder ao:

Chamar ataque especulativo de “mercado nervoso”.

Chamar justiça tributária de “radicalismo”.

Chamar militarização de “ordem”.

Chamar entrega do patrimônio público de “modernização”.

Essa violência simbólica é invisível, pois opera no nível das palavras, das ideias, da linguagem cotidiana.
Ela se infiltra nos telejornais, nos púlpitos, nos aplicativos de delivery, nas universidades e até nas escolas.

A resposta é reorganizar os sentidos:

Resgatar a palavra “povo”, “trabalhador”, “direito”, “soberania”, “comunidade”.

Reencantar o significado da política como ferramenta de emancipação.

4. Boaventura de Sousa Santos: a gramática do tempo como arma de luta

Boaventura nos convida a pensar o tempo como campo de dominação.

A elite opera com uma gramática do tempo neoliberal, baseada em:

O presente eterno da crise (“não tem dinheiro para nada”).

A anulação do passado popular (apagando conquistas e lutas).

O fechamento do futuro (“não há alternativa”).

Com isso, destrói a memória e bloqueia a esperança.

A esquerda, portanto, precisa recuperar o tempo do povo, que é:

O tempo da ancestralidade.

O tempo da utopia concreta.

O tempo da paciência histórica.

Como dizia Paulo Freire:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”

Boaventura também propõe uma epistemologia do Sul, ou seja, valorizar os saberes e tempos populares, indígenas, quilombolas, periféricos, femininos, camponeses.

Só assim podemos construir uma alternativa ao projeto de destruição total promovido pela aliança entre capital financeiro e ultradireita mundial.

5. A traição do Centrão e a luta pela soberania simbólica

O Centrão não traiu: ele cumpriu seu papel histórico como operador da elite rentista.
Não podemos tratar o Centrão como se tivesse "enganado" o governo. Ele é a engrenagem de um projeto de dominação de classe.

O problema é que o governo tentou unir o que é inconciliável:

Um projeto de soberania com um Congresso de vassalos.

Um projeto de justiça social com bilionários que não querem pagar impostos.

Um pacto social com setores que vivem da guerra, da fome, da mentira e do medo.

O povo brasileiro, que paga a conta, começa a entender esse jogo.

A luta pela taxação dos ricos, pela defesa dos serviços públicos, pela soberania energética e alimentar está criando uma nova consciência de classe, política, espiritual, ecológica e histórica.

6. Comunicação popular e mobilização: a chave da virada

A velha mídia tenta pintar Lula como radical porque ele ousou falar a verdade:

Que rico precisa pagar imposto.

Que o povo precisa ser respeitado.

Que o Brasil precisa ser do Brasil, e não dos EUA ou de Israel.

A reação violenta das elites mostra que a verdade dói em quem vive da mentira.
Mas também mostra que há espaço para uma virada, desde que:

O governo comunique com o povo e não com o “mercado”.

Os movimentos sociais estejam nas ruas e nas redes.

A esperança seja recuperada como força mobilizadora.

7. Quadro comparativo: Integração das teorias

Autor

Contribuição central

Aplicação à conjuntura

Gramsci

Hegemonia e guerra de posição

Disputa simbólica, política e cultural no Congresso, nas redes e igrejas

Bourdieu

Poder simbólico e violência simbólica

Naturalização das desigualdades e da submissão ideológica

Boaventura

Gramática do tempo e epistemologias do Sul

Recuperar o tempo histórico popular, a utopia e a soberania cultural


8. Conclusão: entre o caos imposto e a esperança organizada

O ano de 2026 será decisivo.

A elite quer repetir 2016. Mas o povo não é mais o mesmo.

Agora entende melhor quem são os traidores, quem são os aliados e o que está em jogo.

“A alternativa à gramática dominante do tempo é uma gramática da esperança e da solidariedade.” (Boaventura de Sousa Santos)

“Todo ato de educação é um ato político.” (Paulo Freire)

“O pessimismo da razão e o otimismo da vontade.” (Gramsci)

“A dominação mais eficaz é aquela que é invisível.” (Bourdieu)

 Caminhemos com o povo. Falemos sua língua.

Confiemos na força dos de baixo.

E que a luta não seja apenas de resistência, mas de reexistência e reencantamento.

9.  REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A Gramática do Tempo: Para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul: Saberes e Lutas. São Paulo: Cortez, 2009.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

Nenhum comentário: