1. Introdução: o tempo da luta, a luta pelo tempo
Vivemos
um momento histórico em que o Brasil novamente se encontra na antessala de um
golpe, como em 2015-2016. O cerco ao governo Lula não é só econômico ou
institucional, é simbólico, ideológico e geopolítico. O que está em disputa é a
soberania nacional frente a um império decadente, porém ainda poderoso, que
utiliza a mídia, o capital financeiro e a política externa dos EUA como
instrumentos de controle global.
E
mais uma vez, como nos tempos de Vargas, Jango, Lula I e II, Dilma, Lula III ou
Allende no Chile, o povo e seu projeto estão sob ataque das oligarquias locais
aliadas às elites internacionais.
Para
compreender esse cenário, precisamos de lentes críticas. E é nesse ponto que
nos ajudam Antonio Gramsci, Pierre Bourdieu e Boaventura de Sousa Santos.
2. Gramsci: hegemonia, guerra de
posição e o papel da comunicação
Gramsci
nos ensinou que a dominação não se sustenta apenas pela força, mas pela hegemonia,
ou seja, pela capacidade de uma classe impor seus valores, costumes e ideias
como se fossem universais, naturais e inevitáveis.
No
Brasil de hoje, isso significa:
A
naturalização da desigualdade como “mérito”.
A
criminalização da política popular como “corrupção”.
A
adoração de empresários bilionários como “heróis”.
A
colonização do imaginário através de igrejas, mídia e redes sociais.
A
luta do povo, portanto, deve ser uma “guerra de posição”: lenta, estratégica, disputando
corações, mentes, símbolos e linguagens.
O PT e os movimentos populares precisam reocupar este território simbólico, cultural e espiritual.
3. Bourdieu: o poder simbólico e a
violência invisível da elite
Pierre
Bourdieu aprofunda essa ideia ao explicar que o poder simbólico é o poder de
nomear, legitimar e definir a realidade. Quem controla os meios simbólicos,
controla a própria percepção das coisas.
A
elite brasileira e os tentáculos do capital estrangeiro exercem hoje esse poder
ao:
Chamar
ataque especulativo de “mercado nervoso”.
Chamar
justiça tributária de “radicalismo”.
Chamar
militarização de “ordem”.
Chamar
entrega do patrimônio público de “modernização”.
Essa violência
simbólica é invisível, pois opera no nível das palavras, das ideias, da
linguagem cotidiana.
Ela se infiltra nos telejornais, nos púlpitos, nos aplicativos de delivery, nas
universidades e até nas escolas.
A
resposta é reorganizar os sentidos:
Resgatar
a palavra “povo”, “trabalhador”, “direito”, “soberania”, “comunidade”.
Reencantar
o significado da política como ferramenta de emancipação.
4. Boaventura de Sousa Santos: a
gramática do tempo como arma de luta
Boaventura
nos convida a pensar o tempo como campo de dominação.
A elite opera com uma gramática do
tempo neoliberal, baseada em:
O
presente eterno da crise (“não tem dinheiro para nada”).
A
anulação do passado popular (apagando conquistas e lutas).
O
fechamento do futuro (“não há alternativa”).
Com
isso, destrói a memória e bloqueia a esperança.
A esquerda, portanto, precisa
recuperar o tempo do povo, que é:
O
tempo da ancestralidade.
O
tempo da utopia concreta.
O
tempo da paciência histórica.
Como
dizia Paulo Freire:
“A
leitura do mundo precede a leitura da palavra.”
Boaventura
também propõe uma epistemologia do Sul, ou seja, valorizar os saberes e tempos
populares, indígenas, quilombolas, periféricos, femininos, camponeses.
Só
assim podemos construir uma alternativa ao projeto de destruição total
promovido pela aliança entre capital financeiro e ultradireita mundial.
5. A traição do Centrão e a luta pela
soberania simbólica
O
Centrão não traiu: ele cumpriu seu papel histórico como operador da elite
rentista.
Não podemos tratar o Centrão como se tivesse "enganado" o governo. Ele
é a engrenagem de um projeto de dominação de classe.
O problema é que o governo tentou
unir o que é inconciliável:
Um
projeto de soberania com um Congresso de vassalos.
Um
projeto de justiça social com bilionários que não querem pagar impostos.
Um pacto
social com setores que vivem da guerra, da fome, da mentira e do medo.
O
povo brasileiro, que paga a conta, começa a entender esse jogo.
A
luta pela taxação dos ricos, pela defesa dos serviços públicos, pela soberania
energética e alimentar está criando uma nova consciência de classe, política,
espiritual, ecológica e histórica.
6. Comunicação popular e mobilização:
a chave da virada
A
velha mídia tenta pintar Lula como radical porque ele ousou falar a verdade:
Que
rico precisa pagar imposto.
Que o
povo precisa ser respeitado.
Que o
Brasil precisa ser do Brasil, e não dos EUA ou de Israel.
A
reação violenta das elites mostra que a verdade dói em quem vive da mentira.
Mas também mostra que há espaço para uma
virada, desde que:
O
governo comunique com o povo e não com o “mercado”.
Os
movimentos sociais estejam nas ruas e nas redes.
A
esperança seja recuperada como força mobilizadora.
7. Quadro comparativo: Integração das
teorias
|
Autor |
Contribuição central |
Aplicação à conjuntura |
|
Gramsci |
Hegemonia
e guerra de posição |
Disputa
simbólica, política e cultural no Congresso, nas redes e igrejas |
|
Bourdieu |
Poder
simbólico e violência simbólica |
Naturalização
das desigualdades e da submissão ideológica |
|
Boaventura |
Gramática
do tempo e epistemologias do Sul |
Recuperar
o tempo histórico popular, a utopia e a soberania cultural |
8. Conclusão: entre o caos imposto e
a esperança organizada
O ano
de 2026 será decisivo.
A
elite quer repetir 2016. Mas o povo não é mais o mesmo.
Agora
entende melhor quem são os traidores, quem são os aliados e o que está em jogo.
“A
alternativa à gramática dominante do tempo é uma gramática da esperança e da
solidariedade.” (Boaventura de Sousa Santos)
“Todo
ato de educação é um ato político.” (Paulo Freire)
“O
pessimismo da razão e o otimismo da vontade.” (Gramsci)
“A
dominação mais eficaz é aquela que é invisível.” (Bourdieu)
Caminhemos com o povo. Falemos sua língua.
Confiemos
na força dos de baixo.
E que a luta não seja apenas de resistência, mas de reexistência e reencantamento.
9. REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O Poder
Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A
Gramática do Tempo: Para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez,
2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do
Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do
Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias
do Sul: Saberes e Lutas. São Paulo: Cortez, 2009.
MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
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