Em 2016, durante o processo de impeachment, a presidenta Dilma Rousseff alertou: o que estava em curso não era apenas uma manobra política, mas o início do desmonte do Estado brasileiro e dos direitos sociais conquistados com muito esforço. Seu aviso foi ignorado por muitos, mas o futuro tratou de confirmar a profecia. O Brasil mergulhou numa era de retrocesso, fome, desemprego e destruição de políticas públicas. O país voltou a figurar no Mapa da Fome, regrediu dez anos em desenvolvimento e assistiu à ascensão do extremismo político. A democracia sangrou.
O Golpe parlamentar e seus Articuladores
O
impeachment de Dilma, sem crime de
responsabilidade comprovado, foi apenas o começo. Setores do Congresso, com
apoio da elite econômica, da mídia corporativa e do capital financeiro,
uniram-se para retomar o controle do orçamento público e frear os avanços das
políticas sociais. Foi um golpe branco, parlamentar, jurídico, midiático, mas,
acima de tudo, um golpe de classe.
Figuras
centrais como Michel Temer, Aécio Neves, Eduardo Cunha e tantos outros se
revelaram mais tarde envolvidos em escândalos de corrupção, gravações
comprometedoras e derrotas eleitorais. A história os expôs. A chamada “maldição
dos golpistas” foi real: prisões, cassações e ostracismo político.
O Avanço da barbárie e o negacionismo
Com o
golpe consolidado, o caminho ficou livre para a ascensão de Jair Bolsonaro,
eleito em 2018 com apoio de fake news, ataques à democracia, manipulação
religiosa e antipetismo promovido pela grande mídia. Um político do baixo
clero, expulso do Exército por indisciplina, com histórico de elogios à
ditadura e defensor da tortura, chegou ao Palácio do Planalto.
Seu
governo foi marcado por obscurantismo, militarização da máquina pública,
destruição de políticas ambientais e sociais, ataques sistemáticos às
universidades e à cultura. Durante a pandemia de COVID-19, mais de 700 mil
brasileiros perderam a vida, muitos deles vítimas do negacionismo oficial, da
aposta em medicamentos ineficazes e do boicote às vacinas. O país,
literalmente, chorou seus mortos enquanto o governo fazia piada.
A Tentativa de golpe e o vale-tudo de 2022
Durante a
campanha eleitoral de 2022, Bolsonaro fez uso descarado da máquina pública para
tentar se perpetuar no poder. Usou a Caixa
Econômica Federal para liberar bilhões em empréstimos consignados para
beneficiários do antigo Bolsa Família, um verdadeiro estelionato eleitoral
travestido de ajuda social. Taxistas e caminhoneiros foram agraciados com
auxílios pontuais, e uma série de benesses foi distribuída às pressas em ano
eleitoral.
No dia
das eleições, houve operações da Polícia
Rodoviária Federal para atrasar o transporte de eleitores no Nordeste,
numa clara tentativa de impedir que a população mais pobre e majoritariamente
favorável a Lula pudesse votar. Um aparato institucional foi mobilizado para
fraudar, manipular ou dificultar a democracia.
Mas, contra tudo e contra todos, Lula venceu. Por uma margem estreita
nos números, mas por uma margem gigantesca em significado. Foi uma vitória da
democracia, da memória, da luta popular. Um verdadeiro milagre político, diante
do vale-tudo bolsonarista.
Lula e o semi-presidencialismo de fato
Assumir o
país, no entanto, foi encontrado um cenário de terra arrasada. O governo Lula
se deparou com um Banco Central
“autônomo”, mas sob o comando de Roberto
Campos Neto, indicado por Bolsonaro, que passou a sabotar a política
econômica por meio de juros
estratosféricos e narrativa inflacionária artificial. Enquanto isso, o
Congresso Nacional, dominado pelo Centrão e suas emendas de relator, assumiu o
controle do orçamento público, impondo uma espécie de semipresidencialismo informal.
Lula
descobriu que havia herdado não apenas um país destruído, mas um sistema
engessado, com a elite política, o
sistema financeiro e as Forças Armadas ainda conspirando nos bastidores.
O golpe não se limitou a 2016, ele foi reformatado, recodificado, continuado em
outras instâncias. As Forças Armadas,
mais uma vez, flertaram com o
autoritarismo, e só recuaram, segundo fontes da diplomacia, após pressão
dos Estados Unidos, que enviaram
recado direto: se houvesse golpe, o
Brasil seria sancionado.
Portanto,
qualquer narrativa de “legalismo militar” é farsa. A institucionalidade só foi mantida porque o imperialismo americano não
viu vantagem em um novo regime militar.
A luta atual: orçamento, justiça fiscal e resistência
Hoje,
Lula luta para cumprir as promessas de campanha, como isentar do imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil e retomar políticas públicas como o Minha Casa
Minha Vida, o Mais Médicos, o PAA e o Bolsa Família com recorte racial, de
gênero e de classe. Mas enfrenta um Congresso capturado por lobbies e
corporações.
Na última
semana, as redes sociais foram tomadas por manifestações populares em favor da taxação dos super-ricos, dos fundos
exclusivos, dos bancos e dos altos salários do serviço público, como
forma de garantir justiça fiscal. Mas o Congresso
resiste — não para proteger o povo, mas para proteger os milionários.
O dilema
está posto: ou o país reencontra seu pacto democrático e popular, ou o abismo
do autoritarismo continuará a rondar a República.
Epílogo: A profecia resiste
A
profecia de Dilma se cumpriu, mas também permanece como farol. O Brasil ainda
está sob os escombros do golpe, tentando se reerguer. Mas há resistência. Há
povo. Há memória.
A luta
não acabou. É preciso continuar denunciando, organizando, educando. O Brasil é
maior do que seus algozes. E sua reconstrução virá não como milagre, mas como
obra coletiva de um povo que, apesar de tudo, nunca desistiu de si mesmo.
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