Introdução
Nasci na Ilha do Poró em
Jaguaruana e cresci em Russas, no
semiárido cearense, onde a vida, entre os anos 70 e 80, era marcada por
blecautes noturnos, escassez de alimentos, água e oportunidades. A infância e
juventude vividas sob o peso da seca, especialmente entre 1979 e 1983, moldaram
um tempo de dor e luta. Com o povo empurrado pela fome rumo à cidade, o que se
via era um país ausente para os pobres. O acesso à educação era para poucos, e
a sobrevivência dependia de ajudas esporádicas e serviços emergenciais.
Este texto é ao mesmo tempo memória e posicionamento. Nele, entrelaço minha formação como educador, as transformações sociais vividas em minha cidade e a disputa de projetos políticos que marcaram o Brasil das últimas décadas. Uma história vivida por dentro, por quem atravessou a fome, o analfabetismo, as derrotas e as esperanças e que segue acreditando que a pátria é maior que qualquer narrativa de ódio.
1. Russas e o Brasil profundo: a infância marcada pela escassez
Nos anos 70, Russas era uma
cidade onde o povo comprava “uma terça de óleo Pajeú” ou “um quarto de
rapadura”. A linguagem da pobreza se traduzia em frações. A energia elétrica
era instável e os apagões faziam parte da rotina. A água, escassa. A comida,
racionada. A escola, um privilégio. A grande seca de 1979-1983 trouxe com ela a
fome em massa e a migração desesperada do campo para a cidade. Nesse cenário, o
governo tentava conter a revolta e o desespero com frentes de serviço, migalhas
salariais e promessas que nem sempre chegavam.
Foi só com a Constituição de 1988
que a universalização das aposentadorias começou a alcançar as zonas rurais. Os
anos 80 foram, de fato, uma década perdida: inflação galopante, desemprego,
fome e analfabetismo marcaram a vida de milhões. Mas em meio à escassez, alguns
sonhos resistiram.
2. 1984: um ano mágico de formação, música e descoberta
Em 1984, entre as Diretas Já e o
surgimento de novas esperanças, entrei na faculdade. Aqueles foram anos de
abundância de ideias. Descobri a filosofia, a sociologia, a psicologia e tantas
ciências que me mostraram outros mundos possíveis. A leitura passou a ser meu
alimento. E a música, minha companheira, canções como Forever Young me fazem
ainda hoje um eterno aprendiz.
Deixei o futebol, as baladas e os
campeonatos de férias para me dedicar à leitura e à linguagem musical das
partituras. O jovem acadêmico se encontrava com o educador em formação. Mas
logo o Brasil cobraria o preço das ilusões midiáticas.
3. Das eleições de 1989 ao neoliberalismo: quando a esperança foi
traída
A primeira eleição direta para
presidente, em 1989, foi um marco. Eu votei em Lula, acreditando na construção
de um Brasil soberano, justo e popular. Perdemos para o “caçador de marajás”,
fabricado pela mídia com edições criminosas de debates e manipulações de
imagem. A eleição de Collor trouxe não só o confisco da poupança, que levou muitos
ao desespero e ao suicídio, como também
aprofundou a crise.
Lula perderia mais duas vezes, em
1994 e 1998, para um PSDB que entregou o país endividado, sucateado e
privatizado. A “privataria” tirou do Brasil o controle sobre a comunicação
(Telebrás), a energia (Vale), e entregou empresas estratégicas a preço vil.
Como pode um país pretender ser soberano se entrega água, energia e
comunicação?
4. A virada: Lula, 2002 e a reconstrução da esperança
Em 2002, contra tudo e todos,
Lula foi eleito. Herdou um país endividado e submisso ao FMI. Teve que assinar
uma “Carta ao Povo Brasileiro” prometendo pagar a dívida de 40 bilhões de
dólares. E pagou. E fez mais: o Brasil cresceu. O PIB saltou. A renda per
capita quadruplicou. As reservas internacionais chegaram a mais de 370 bilhões
de dólares. O país se tornou credor do FMI e a pobreza foi reduzida como nunca
antes.
Em Russas, a transformação foi
visível: motos, casas, eletrodomésticos, universidades, escolas técnicas nas
cidades vizinhas, e políticas públicas
passaram a fazer parte da vida do povo. A cidade passou a ter campus da UFC,
escolas de tempo integral, UPA, hospital regional em Limoeiro, e até formação
em medicina. O povo que comprava "um quarto de rapadura" passou a
sonhar com o diploma.
5. A memória como resistência: Mauro Santayana e os dados que a mídia
esconde
Em 2015, o jornalista Mauro
Santayana publicou o artigo “A nova marcha dos insensatos e sua primeira
vítima”, mostrando, com base em dados do Banco Mundial e do FMI, o salto
histórico da economia brasileira entre 2002 e 2014. Enquanto o governo FHC
reduziu o PIB e aumentou a dívida, Lula multiplicou a economia por quatro. O
salário mínimo triplicou em dólares. A desigualdade caiu.
Mesmo assim, a mídia forjou
narrativas para derrubar os avanços. Criou fantasmas, o comunismo, o populismo,
a corrupção seletiva enquanto silenciava sobre a própria participação em
escândalos históricos. O problema nunca foi a corrupção, mas sim o projeto de
país que tirava os pobres da senzala simbólica.
Conclusão: entre a estrela e os
grilhões
Este texto é memória viva de um
sertanejo que venceu a fome, a seca, o analfabetismo ao redor e encontrou na
educação um caminho de libertação. Mas também é alerta: o Brasil está em
disputa. O projeto de soberania nacional está sob ataque. Estamos diante da
encruzilhada entre um país que decide seu destino ou um vassalo de interesses
estrangeiros.
Como escreveu Santayana, a
verdade foi a primeira vítima dessa nova marcha dos insensatos. Cabe a nós,
educadores, filhos da terra seca, do povo que resistiu aos blecautes e à fome,
reacender a luz e não apenas a da energia elétrica, mas a da consciência
crítica.
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