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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Russas, memórias e soberania: entre a seca, os blecautes e a construção de um Brasil possível

 Introdução

Nasci na Ilha do Poró em Jaguaruana e  cresci em Russas, no semiárido cearense, onde a vida, entre os anos 70 e 80, era marcada por blecautes noturnos, escassez de alimentos, água e oportunidades. A infância e juventude vividas sob o peso da seca, especialmente entre 1979 e 1983, moldaram um tempo de dor e luta. Com o povo empurrado pela fome rumo à cidade, o que se via era um país ausente para os pobres. O acesso à educação era para poucos, e a sobrevivência dependia de ajudas esporádicas e serviços emergenciais.

Este texto é ao mesmo tempo memória e posicionamento. Nele, entrelaço minha formação como educador, as transformações sociais vividas em minha cidade e a disputa de projetos políticos que marcaram o Brasil das últimas décadas. Uma história vivida por dentro, por quem atravessou a fome, o analfabetismo, as derrotas e as esperanças e que segue acreditando que a pátria é maior que qualquer narrativa de ódio.

1. Russas e o Brasil profundo: a infância marcada pela escassez

Nos anos 70, Russas era uma cidade onde o povo comprava “uma terça de óleo Pajeú” ou “um quarto de rapadura”. A linguagem da pobreza se traduzia em frações. A energia elétrica era instável e os apagões faziam parte da rotina. A água, escassa. A comida, racionada. A escola, um privilégio. A grande seca de 1979-1983 trouxe com ela a fome em massa e a migração desesperada do campo para a cidade. Nesse cenário, o governo tentava conter a revolta e o desespero com frentes de serviço, migalhas salariais e promessas que nem sempre chegavam.

Foi só com a Constituição de 1988 que a universalização das aposentadorias começou a alcançar as zonas rurais. Os anos 80 foram, de fato, uma década perdida: inflação galopante, desemprego, fome e analfabetismo marcaram a vida de milhões. Mas em meio à escassez, alguns sonhos resistiram.

2. 1984: um ano mágico de formação, música e descoberta

Em 1984, entre as Diretas Já e o surgimento de novas esperanças, entrei na faculdade. Aqueles foram anos de abundância de ideias. Descobri a filosofia, a sociologia, a psicologia e tantas ciências que me mostraram outros mundos possíveis. A leitura passou a ser meu alimento. E a música, minha companheira, canções como Forever Young me fazem ainda hoje um eterno aprendiz.

Deixei o futebol, as baladas e os campeonatos de férias para me dedicar à leitura e à linguagem musical das partituras. O jovem acadêmico se encontrava com o educador em formação. Mas logo o Brasil cobraria o preço das ilusões midiáticas.

3. Das eleições de 1989 ao neoliberalismo: quando a esperança foi traída

A primeira eleição direta para presidente, em 1989, foi um marco. Eu votei em Lula, acreditando na construção de um Brasil soberano, justo e popular. Perdemos para o “caçador de marajás”, fabricado pela mídia com edições criminosas de debates e manipulações de imagem. A eleição de Collor trouxe não só o confisco da poupança, que levou muitos ao desespero e ao suicídio,  como também aprofundou a crise.

Lula perderia mais duas vezes, em 1994 e 1998, para um PSDB que entregou o país endividado, sucateado e privatizado. A “privataria” tirou do Brasil o controle sobre a comunicação (Telebrás), a energia (Vale), e entregou empresas estratégicas a preço vil. Como pode um país pretender ser soberano se entrega água, energia e comunicação?

4. A virada: Lula, 2002 e a reconstrução da esperança

Em 2002, contra tudo e todos, Lula foi eleito. Herdou um país endividado e submisso ao FMI. Teve que assinar uma “Carta ao Povo Brasileiro” prometendo pagar a dívida de 40 bilhões de dólares. E pagou. E fez mais: o Brasil cresceu. O PIB saltou. A renda per capita quadruplicou. As reservas internacionais chegaram a mais de 370 bilhões de dólares. O país se tornou credor do FMI e a pobreza foi reduzida como nunca antes.

Em Russas, a transformação foi visível: motos, casas, eletrodomésticos, universidades, escolas técnicas nas cidades vizinhas,  e políticas públicas passaram a fazer parte da vida do povo. A cidade passou a ter campus da UFC, escolas de tempo integral, UPA, hospital regional em Limoeiro, e até formação em medicina. O povo que comprava "um quarto de rapadura" passou a sonhar com o diploma.

5. A memória como resistência: Mauro Santayana e os dados que a mídia esconde

Em 2015, o jornalista Mauro Santayana publicou o artigo “A nova marcha dos insensatos e sua primeira vítima”, mostrando, com base em dados do Banco Mundial e do FMI, o salto histórico da economia brasileira entre 2002 e 2014. Enquanto o governo FHC reduziu o PIB e aumentou a dívida, Lula multiplicou a economia por quatro. O salário mínimo triplicou em dólares. A desigualdade caiu.

Mesmo assim, a mídia forjou narrativas para derrubar os avanços. Criou fantasmas, o comunismo, o populismo, a corrupção seletiva  enquanto silenciava sobre a própria participação em escândalos históricos. O problema nunca foi a corrupção, mas sim o projeto de país que tirava os pobres da senzala simbólica.

Conclusão: entre a estrela e os grilhões

Este texto é memória viva de um sertanejo que venceu a fome, a seca, o analfabetismo ao redor e encontrou na educação um caminho de libertação. Mas também é alerta: o Brasil está em disputa. O projeto de soberania nacional está sob ataque. Estamos diante da encruzilhada entre um país que decide seu destino ou um vassalo de interesses estrangeiros.

Como escreveu Santayana, a verdade foi a primeira vítima dessa nova marcha dos insensatos. Cabe a nós, educadores, filhos da terra seca, do povo que resistiu aos blecautes e à fome, reacender a luz  e não apenas a da energia elétrica, mas a da consciência crítica.

 

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