Mário
Schenberg, Dalton Ellery, Almirante Othon e o Brasil que pensa com cabeça
própria
Menos de 1% dos brasileiros sabe quem foi Mário Schenberg. E menos ainda sabem que ele foi um dos maiores físicos teóricos do século XX, respeitado por Einstein, Fermi e George Gamow¹, e que nasceu em Recife, Pernambuco, em 2 de julho de 1914². Em tempos em que celebramos cientistas de outros países, esquecemos dos nossos próprios gigantes, como Dalton Ellery Girão Barroso, físico cearense, referência nacional em segurança e tecnologia nuclear, e peça-chave no desenvolvimento autônomo do setor no Brasil.
Schenberg
foi um nome central na construção da ciência brasileira. Matemático, filósofo,
artista e militante, atuou na consolidação da USP, do CNPq e da FAPESP³. Foi
deputado estadual pelo PCB nos anos 1940 e cassado pelo regime militar por
defender a autonomia da ciência nacional. Em 1969, escreveu um célebre parecer
alertando contra a dependência tecnológica do Brasil em relação aos EUA,
especialmente no campo da energia nuclear⁴.
Dalton
Ellery, natural do Ceará, destacou-se no campo da física aplicada à segurança
nuclear. Sua carreira foi marcada pelo pioneirismo no desenvolvimento de
tecnologias nucleares estratégicas, promovendo a independência tecnológica do
país em uma área de alta complexidade e relevância geopolítica. Como líder
técnico e gestor, Dalton coordenou projetos fundamentais para a modernização do
setor nuclear brasileiro, colaborando com instituições de pesquisa,
universidades e órgãos governamentais para fortalecer o sistema
científico-tecnológico nacional.
Nos
anos 1980 e 1990, o Brasil avançou significativamente em tecnologias nucleares,
com forte protagonismo de militares, engenheiros e cientistas. Nesse contexto,
nomes como o do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, preso anos depois na
controversa operação Lava Jato, marcaram a história por seu papel técnico na
implementação de centrifugadoras nacionais. Embora não tenham atuado
diretamente juntos, Schenberg, Dalton Ellery e Othon representaram faces
complementares da mesma luta: a busca por soberania científica e tecnológica.
Mário
Schenberg acreditava que o Brasil só seria realmente independente se tivesse
domínio sobre ciência e tecnologia de ponta. Por isso, sempre se opôs ao uso
militar do conhecimento, defendendo a paz, os direitos humanos e o controle soberano
da energia atômica — como propõe o Artigo 21 da Constituição de 1988, que
estabelece que a energia nuclear deve ser usada exclusivamente para fins
pacíficos⁵.
Nos
últimos anos, setores da sociedade brasileira, inclusive lideranças políticas e
empresariais, passaram a questionar se o país deve continuar apenas como
consumidor de tecnologias, ou se deve retomar seu projeto de desenvolvimento
soberano — com investimento em ciência nacional, formação de cientistas,
valorização das universidades e controle estratégico sobre recursos naturais e
infraestrutura tecnológica.
Lembrar
de Schenberg, Dalton Ellery, Almirante Othon e tantos outros cientistas
brasileiros não é um gesto de nostalgia, mas de compromisso com o futuro. O
Brasil precisa voltar a pensar com a própria cabeça. E isso começa por
recuperar a memória de quem ousou fazê-lo antes de nós.
Notas
e Referências
Gamow,
G. (1966). Thirty Years That Shook Physics: The Story of Quantum Theory.
Schenberg é citado por diversos físicos contemporâneos como mente brilhante da
astrofísica e da relatividade geral.
Enciclopédia FGV CPDOC sobre Mário Schenberg — Confirmação
unânime do local de nascimento: Recife, PE.
Atuação
de Schenberg como membro de conselhos e pesquisador: CNPq, FAPESP e USP. Foi
presidente do Conselho da FAPESP e teve papel relevante na política científica
paulista.
Parecer
de 1969: Trecho analisado por LAFER, Celso. A reconstrução da ciência no Brasil
(1945-1985). (Cia das Letras, 2000).
Constituição
Federal, Art. 21, inciso XXIII, alínea ‘a’: “Compete à União: (...) exercer
monopólio sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a
industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados, nos
termos da lei; sob regime de permissão, para fins pacíficos.”
Sobre
Dalton Ellery Girão Barroso
Dalton
Ellery Girão Barroso, físico natural do Ceará, é um dos grandes nomes da
ciência brasileira na área nuclear. Sua trajetória se destaca pelo pioneirismo
no desenvolvimento de tecnologias e protocolos de segurança nuclear,
fundamentais para o Brasil manter autonomia em um campo estratégico e sensível.
Formado
em física, Dalton construiu uma carreira sólida como pesquisador e gestor,
liderando equipes multidisciplinares e colaborando com diversas instituições
nacionais para o fortalecimento da infraestrutura científica e tecnológica do
país. Sua atuação foi essencial para que o Brasil não permanecesse apenas
consumidor de tecnologia estrangeira, mas se tornasse produtor e controlador de
suas próprias inovações.
Além
da sua contribuição técnica, Dalton Ellery foi mentor e formador de novas
gerações de cientistas, incentivando a pesquisa aplicada e o desenvolvimento
sustentável da ciência brasileira, especialmente em áreas ligadas à segurança e
soberania nacional.
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