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segunda-feira, 28 de julho de 2025

Mário Schenberg, Dalton Ellery, Almirante Othon e o Brasil que pensa com cabeça própria

Mário Schenberg, Dalton Ellery, Almirante Othon e o Brasil que pensa com cabeça própria

Menos de 1% dos brasileiros sabe quem foi Mário Schenberg. E menos ainda sabem que ele foi um dos maiores físicos teóricos do século XX, respeitado por Einstein, Fermi e George Gamow¹, e que nasceu em Recife, Pernambuco, em 2 de julho de 1914². Em tempos em que celebramos cientistas de outros países, esquecemos dos nossos próprios gigantes, como Dalton Ellery Girão Barroso, físico cearense, referência nacional em segurança e tecnologia nuclear, e peça-chave no desenvolvimento autônomo do setor no Brasil.

Schenberg foi um nome central na construção da ciência brasileira. Matemático, filósofo, artista e militante, atuou na consolidação da USP, do CNPq e da FAPESP³. Foi deputado estadual pelo PCB nos anos 1940 e cassado pelo regime militar por defender a autonomia da ciência nacional. Em 1969, escreveu um célebre parecer alertando contra a dependência tecnológica do Brasil em relação aos EUA, especialmente no campo da energia nuclear⁴.

Dalton Ellery, natural do Ceará, destacou-se no campo da física aplicada à segurança nuclear. Sua carreira foi marcada pelo pioneirismo no desenvolvimento de tecnologias nucleares estratégicas, promovendo a independência tecnológica do país em uma área de alta complexidade e relevância geopolítica. Como líder técnico e gestor, Dalton coordenou projetos fundamentais para a modernização do setor nuclear brasileiro, colaborando com instituições de pesquisa, universidades e órgãos governamentais para fortalecer o sistema científico-tecnológico nacional.

Nos anos 1980 e 1990, o Brasil avançou significativamente em tecnologias nucleares, com forte protagonismo de militares, engenheiros e cientistas. Nesse contexto, nomes como o do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, preso anos depois na controversa operação Lava Jato, marcaram a história por seu papel técnico na implementação de centrifugadoras nacionais. Embora não tenham atuado diretamente juntos, Schenberg, Dalton Ellery e Othon representaram faces complementares da mesma luta: a busca por soberania científica e tecnológica.

Mário Schenberg acreditava que o Brasil só seria realmente independente se tivesse domínio sobre ciência e tecnologia de ponta. Por isso, sempre se opôs ao uso militar do conhecimento, defendendo a paz, os direitos humanos e o controle soberano da energia atômica — como propõe o Artigo 21 da Constituição de 1988, que estabelece que a energia nuclear deve ser usada exclusivamente para fins pacíficos⁵.

Nos últimos anos, setores da sociedade brasileira, inclusive lideranças políticas e empresariais, passaram a questionar se o país deve continuar apenas como consumidor de tecnologias, ou se deve retomar seu projeto de desenvolvimento soberano — com investimento em ciência nacional, formação de cientistas, valorização das universidades e controle estratégico sobre recursos naturais e infraestrutura tecnológica.

Lembrar de Schenberg, Dalton Ellery, Almirante Othon e tantos outros cientistas brasileiros não é um gesto de nostalgia, mas de compromisso com o futuro. O Brasil precisa voltar a pensar com a própria cabeça. E isso começa por recuperar a memória de quem ousou fazê-lo antes de nós.


Notas e Referências

Gamow, G. (1966). Thirty Years That Shook Physics: The Story of Quantum Theory. Schenberg é citado por diversos físicos contemporâneos como mente brilhante da astrofísica e da relatividade geral.

Enciclopédia FGV CPDOC sobre Mário Schenberg — Confirmação unânime do local de nascimento: Recife, PE.

Atuação de Schenberg como membro de conselhos e pesquisador: CNPq, FAPESP e USP. Foi presidente do Conselho da FAPESP e teve papel relevante na política científica paulista.

Parecer de 1969: Trecho analisado por LAFER, Celso. A reconstrução da ciência no Brasil (1945-1985). (Cia das Letras, 2000).

Constituição Federal, Art. 21, inciso XXIII, alínea ‘a’: “Compete à União: (...) exercer monopólio sobre a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios nucleares e seus derivados, nos termos da lei; sob regime de permissão, para fins pacíficos.”


Sobre Dalton Ellery Girão Barroso

Dalton Ellery Girão Barroso, físico natural do Ceará, é um dos grandes nomes da ciência brasileira na área nuclear. Sua trajetória se destaca pelo pioneirismo no desenvolvimento de tecnologias e protocolos de segurança nuclear, fundamentais para o Brasil manter autonomia em um campo estratégico e sensível.

Formado em física, Dalton construiu uma carreira sólida como pesquisador e gestor, liderando equipes multidisciplinares e colaborando com diversas instituições nacionais para o fortalecimento da infraestrutura científica e tecnológica do país. Sua atuação foi essencial para que o Brasil não permanecesse apenas consumidor de tecnologia estrangeira, mas se tornasse produtor e controlador de suas próprias inovações.

Além da sua contribuição técnica, Dalton Ellery foi mentor e formador de novas gerações de cientistas, incentivando a pesquisa aplicada e o desenvolvimento sustentável da ciência brasileira, especialmente em áreas ligadas à segurança e soberania nacional.

 


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