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quarta-feira, 9 de julho de 2025

Soberania ou Vassalagem: o Brasil em Xeque e o papel histórico de Lula

 

O ataque direto à soberania brasileira

A recente declaração de Donald Trump, condicionando a suspensão de tarifas sobre produtos brasileiros à submissão institucional do Brasil, inclusive à deslegitimação do STF constitui um ataque frontal à soberania nacional. Não se trata apenas de uma manobra econômica, mas de um gesto imperialista explícito. É a Doutrina Monroe, do século XIX, "América para os americanos", reeditada em 2025 com ameaças e chantagens contra um país que ousa integrar um projeto multipolar como os BRICS.

A intenção é clara: fragilizar a liderança do Brasil nos BRICS, neutralizar politicamente o governo Lula e restaurar a vassalagem geopolítica brasileira ao império americano, não por meio da diplomacia, mas da coerção econômica e simbólica.

O poder simbólico e o controle das ideias

Como nos ensina Pierre Bourdieu, o verdadeiro poder não é apenas o que se impõe pela força, mas o que se torna “natural” na mente das pessoas. O poder simbólico age silenciosamente, como uma violência doce, que leva o oprimido a aceitar sua dominação como justa, inevitável ou desejável.

É isso que está em curso quando a grande mídia brasileira normaliza a interferência estrangeira, criminaliza a resistência popular e apresenta as elites econômicas e políticas como “neutras” ou “tecnicamente competentes”. Nesse teatro da “imparcialidade”, a classe dominante fala como se fosse o país, e o povo vira ameaça à estabilidade.

A gramática do tempo e a esperança como rebeldia

Boaventura de Sousa Santos nos alerta que vivemos sob uma "gramática dominante do tempo": o tempo rápido, neoliberal, de decisões tomadas para os mercados, e não para os povos. Um tempo que esmaga utopias, desqualifica memórias e apaga futuros possíveis. Segundo ele:

“A alternativa à gramática dominante do tempo é uma gramática da esperança e da solidariedade.”
(Boaventura de Sousa Santos, A Gramática do Tempo, (2006, p. 9)

A luta de Lula, hoje, não é apenas uma luta contra tarifas ou chantagens. É uma luta contra a cronologia do capital, que quer apressar o fim da soberania e desacreditar a política como instrumento de emancipação. Nesse sentido, resistir ao diktat de Trump não é só geopolítica, é poesia histórica, é reescrever o tempo com o povo como protagonista.

Materialismo histórico-dialético: compreender para transformar

Karl Marx já advertia: os conflitos não são eventos isolados, mas expressões de contradições materiais. A ofensiva atual contra o Brasil precisa ser lida pela lente do materialismo histórico-dialético:

A crise do império americano é real: China e Rússia ameaçam sua hegemonia.

Os BRICS representam uma nova lógica de cooperação entre países do Sul Global, ameaçando o dólar e a arquitetura financeira neoliberal.

O Brasil, com suas riquezas e localização estratégica, é visto como elo fraco, por isso precisa ser desestabilizado por dentro.

Logo, os ataques contra o governo Lula, o STF, os BRICS, e a tentativa de reabilitação política de Bolsonaro fazem parte de uma engrenagem mais ampla de dominação global.

Freire e a pedagogia da soberania

Paulo Freire ensinou que não há neutralidade na educação, nem na política. Toda ação é situada. E quando a elite tenta “ensinar” ao povo que soberania é perigosa, que Lula é “radical” por querer tributar os mais ricos, ou que resistir à OTAN e aos EUA é “isolamento”, ela está educando para a submissão.

Freire nos oferece a pedagogia da indignação e da esperança:

“Denunciar a opressão é o primeiro passo para superá-la. E anunciar um mundo novo é o que alimenta a caminhada.”

Por isso, não basta reagir a Trump. É preciso anunciar o que queremos: um Brasil soberano, solidário, justo, com o povo no centro da decisão política.

Lula em xeque,  mas não é xeque-mate

Sim, Lula está em xeque. Mas não está derrotado. Ele tem saídas, embora todas arriscadas:

Não ceder à chantagem de Trump.

Buscar ampliar acordos bilaterais com China, Rússia, Índia, países africanos e árabes.

Reforçar a comunicação direta com o povo, pelas redes e pelas ruas.

Convocar o embaixador em Washington como gesto diplomático de resistência.

Aumentar a taxação sobre produtos norte-americanos como medida de reciprocidade.

Fortalecer os BRICS como projeto de civilização alternativa.

Governar com o povo, ou não governar

O Congresso brasileiro, em sua maioria, representa a elite, os bilionários e os interesses externos. Lula precisa, mais do que nunca, governar com o povo e para o povo. Como dizia Getúlio Vargas, “O povo me pôs no poder, só o povo me tirará de lá”.

E se for preciso cair, que seja lutando por soberania, não recuando diante da história.

Conclusão: esperança organizada, soberania inegociável

Se o golpe de 2016 foi arquitetado nos salões de Brasília com apoio de Washington, o golpe de 2026 está sendo gestado em tempo real, nas redes sociais, nos think tanks americanos, nos lobbies sionistas e nos gabinetes do Congresso Nacional.

Mas a história nunca está escrita por inteiro. Se o governo for capaz de mobilizar a esperança coletiva como categoria política, se Lula falar ao coração do povo, com firmeza, verdade e indignação, a narrativa muda, a correlação de forças muda, e a história se dobra à resistência.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A Gramática do Tempo: Para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul: Saberes e Lutas. São Paulo: Cortez, 2009

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