O ataque direto à soberania brasileira
A recente declaração de Donald
Trump, condicionando a suspensão de tarifas sobre produtos brasileiros à submissão
institucional do Brasil, inclusive à deslegitimação do STF constitui um ataque
frontal à soberania nacional. Não se trata apenas de uma manobra econômica, mas
de um gesto imperialista explícito. É a Doutrina Monroe, do século XIX, "América
para os americanos", reeditada em 2025 com ameaças e chantagens contra um
país que ousa integrar um projeto multipolar como os BRICS.
A intenção é clara: fragilizar a
liderança do Brasil nos BRICS, neutralizar politicamente o governo Lula e restaurar
a vassalagem geopolítica brasileira ao império americano, não por meio da
diplomacia, mas da coerção econômica e simbólica.
O poder simbólico e o controle das ideias
Como nos ensina Pierre Bourdieu,
o verdadeiro poder não é apenas o que se impõe pela força, mas o que se torna
“natural” na mente das pessoas. O poder simbólico age silenciosamente, como uma
violência doce, que leva o oprimido a aceitar sua dominação como justa,
inevitável ou desejável.
É isso que está em curso quando a grande mídia brasileira normaliza a interferência estrangeira, criminaliza a resistência popular e apresenta as elites econômicas e políticas como “neutras” ou “tecnicamente competentes”. Nesse teatro da “imparcialidade”, a classe dominante fala como se fosse o país, e o povo vira ameaça à estabilidade.
A gramática do tempo e a esperança como rebeldia
Boaventura de Sousa Santos nos
alerta que vivemos sob uma "gramática dominante do tempo": o tempo
rápido, neoliberal, de decisões tomadas para os mercados, e não para os povos.
Um tempo que esmaga utopias, desqualifica memórias e apaga futuros possíveis.
Segundo ele:
“A alternativa à gramática
dominante do tempo é uma gramática da esperança e da solidariedade.”
(Boaventura de Sousa Santos, A Gramática do Tempo, (2006, p. 9)
A luta de Lula, hoje, não é
apenas uma luta contra tarifas ou chantagens. É uma luta contra a cronologia do
capital, que quer apressar o fim da soberania e desacreditar a política como
instrumento de emancipação. Nesse sentido, resistir ao diktat de Trump não é só
geopolítica, é poesia histórica, é reescrever o tempo com o povo como
protagonista.
Materialismo histórico-dialético: compreender para transformar
Karl Marx já advertia: os
conflitos não são eventos isolados, mas expressões de contradições materiais. A
ofensiva atual contra o Brasil precisa ser lida pela lente do materialismo
histórico-dialético:
A crise do império americano é
real: China e Rússia ameaçam sua hegemonia.
Os BRICS representam uma nova
lógica de cooperação entre países do Sul Global, ameaçando o dólar e a
arquitetura financeira neoliberal.
O Brasil, com suas riquezas e localização
estratégica, é visto como elo fraco, por isso precisa ser desestabilizado por
dentro.
Logo, os ataques contra o governo
Lula, o STF, os BRICS, e a tentativa de reabilitação política de Bolsonaro
fazem parte de uma engrenagem mais ampla de dominação global.
Freire e a pedagogia da soberania
Paulo Freire ensinou que não há
neutralidade na educação, nem na política. Toda ação é situada. E quando a
elite tenta “ensinar” ao povo que soberania é perigosa, que Lula é “radical”
por querer tributar os mais ricos, ou que resistir à OTAN e aos EUA é
“isolamento”, ela está educando para a submissão.
Freire nos oferece a pedagogia da
indignação e da esperança:
“Denunciar a opressão é o
primeiro passo para superá-la. E anunciar um mundo novo é o que alimenta a
caminhada.”
Por isso, não basta reagir a
Trump. É preciso anunciar o que queremos: um Brasil soberano, solidário, justo,
com o povo no centro da decisão política.
Lula em xeque, mas não é xeque-mate
Sim, Lula está em xeque. Mas não
está derrotado. Ele tem saídas, embora todas arriscadas:
Não ceder à chantagem de Trump.
Buscar ampliar acordos bilaterais
com China, Rússia, Índia, países africanos e árabes.
Reforçar a comunicação direta com
o povo, pelas redes e pelas ruas.
Convocar o embaixador em
Washington como gesto diplomático de resistência.
Aumentar a taxação sobre produtos
norte-americanos como medida de reciprocidade.
Fortalecer os BRICS como projeto
de civilização alternativa.
Governar com o povo, ou não governar
O Congresso brasileiro, em sua
maioria, representa a elite, os bilionários e os interesses externos. Lula
precisa, mais do que nunca, governar com o povo e para o povo. Como dizia
Getúlio Vargas, “O povo me pôs no poder, só o povo me tirará de lá”.
E se for preciso cair, que seja lutando
por soberania, não recuando diante da história.
Conclusão: esperança organizada, soberania inegociável
Se o golpe de 2016 foi
arquitetado nos salões de Brasília com apoio de Washington, o golpe de 2026
está sendo gestado em tempo real, nas redes sociais, nos think tanks
americanos, nos lobbies sionistas e nos gabinetes do Congresso Nacional.
Mas a história nunca está escrita
por inteiro. Se o governo for capaz de mobilizar a esperança coletiva como
categoria política, se Lula falar ao coração do povo, com firmeza, verdade e
indignação, a narrativa muda, a correlação de forças muda, e a história se
dobra à resistência.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1989.
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. A Gramática do Tempo: Para uma nova
cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.
MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1987.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1999.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemologias do Sul: Saberes e Lutas.
São Paulo: Cortez, 2009
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