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sexta-feira, 20 de junho de 2025

🌹 Maria Madalena – A Apóstola Silenciada, a Sabedoria Ressurgente

Por Luis Moreira de Oliveira Filho

Blog: Olhos do Sertão

“Eu a guiarei para torná-la homem, para que ela também se torne um espírito vivente, semelhante a vós, homens. Pois toda mulher que se tornar homem entrará no Reino dos Céus.”
(Evangelho de Tomé, logion 114)

Quem foi Maria Madalena?

Maria de Magdala. Mulher da Galileia. Discípula de Jesus. Primeira testemunha da ressurreição. Chamá-la de “pecadora arrependida” é reduzir sua grandeza espiritual a uma caricatura criada por homens que temeram sua luz.

Magdala era uma cidade portuária da Galileia. Maria provavelmente foi uma mulher culta, forte, independente. Os evangelhos canônicos nos dizem que Jesus expulsou dela “sete demônios” — metáfora que pode se referir a curas profundas, talvez espirituais ou sociais. Ela então o segue com fidelidade.


Nos evangelhos canônicos: presença firme e fé viva

Maria Madalena aparece:

·        Aos pés da cruz, quando todos fugiram;

·        No sepulcro, chorando em busca do Mestre;

·        E é a primeira a ver o Cristo ressuscitado, sendo enviada por ele com uma missão:

“Vai e anuncia aos meus irmãos...” (Jo 20,17)

A tradição a chama de “apóstola dos apóstolos”. No entanto, a história institucional preferiu apagar seu protagonismo e torná-la apenas uma pecadora redimida.

 Nos evangelhos gnósticos: líder espiritual, reveladora do mistério

O Evangelho de Maria, encontrado em Nag Hammadi,  mostra uma outra dimensão de Maria:

·        Ela tem uma visão espiritual após a ressurreição;

·        Revela ensinamentos que os outros discípulos não compreenderam;

·        Enfrenta resistência de Pedro, que duvida de sua autoridade por ser mulher.

Maria responde com firmeza. Leví a defende. Um embate simbólico entre o sagrado feminino e a autoridade masculina se inscreve nesse texto.

“O Salvador a conhecia bem. Por isso a amava mais do que a nós.” (Evangelho de Maria)

No Evangelho de Filipe, é chamada de koinônos — companheira. Ele a beijava. Compartilhava com ela segredos do Reino. Não como privilégio afetivo, mas como reconhecimento espiritual.

O ministério de Maria: entre a Galileia e o Ocidente

Segundo tradições apócrifas e orais:

·        Maria evangelizou na Síria e na Ásia Menor;

·        Outras versões afirmam que ela foi à Gália (França), chegando a Marselha, onde viveu como mística, em cavernas, pregando a mensagem do Cristo ressuscitado;

·        Seu ministério teria se estendido até o ano 175 d.C., segundo tradições gnósticas e registros orais.

Ela seria, então, a primeira grande missionária do cristianismo não imperial, sem templos, sem dogmas, sem poder — apenas com a palavra e o Espírito.

Maria e o sagrado feminino: símbolo da Sophia esquecida

Na tradição gnóstica, Maria Madalena representa a Sabedoria (Sophia) que foi exilada pelo mundo masculino do poder. Ela é ponte entre o corpo e o espírito, entre eros e agápe, entre terra e céu.

Ela é mulher inteira — mística, racional, amorosa e intuitiva.

O oposto da mulher fragmentada, domesticada, silenciada pela Igreja patriarcal.

Luta, silenciamento e resgate

A Igreja negou às mulheres o púlpito, o altar, a voz.

Mas nunca conseguiu apagar as Marias, as anas, as luzias, as franciscas que mantiveram viva a fé nos quintais, nas casas, nas quebradas do mundo.

Maria Madalena é a mãe espiritual da resistência feminina na fé.

Hoje, a teologia feminista, os estudos gnósticos e o movimento de espiritualidade do sagrado feminino resgatam seu nome com honra.

A Maria do agora

No século XXI, Maria Madalena reaparece — não como sombra do Cristo, mas como luz própria.

·        Símbolo das mulheres que se levantam.

·        Arquétipo da alma que busca a verdade interior.

·        Modelo de espiritualidade livre, plural, reconciliada com o corpo e a terra.

Conclusão: Voltar a Madalena é reencontrar a luz esquecida

Ela chorou no jardim. Mas não por fraqueza.


Chorou porque enxergava o invisível.

Foi a primeira a ver o Ressuscitado.

Foi a primeira a ser silenciada.

Mas agora ela volta.

E com ela, volta o chamado à sabedoria perdida, ao amor sem medo, à fé sem jaulas.

📖 Nos próximos posts: O Evangelho de Maria Madalena – análise espiritual e textual.


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