Por Luis Moreira de Oliveira Filho
Blog: Olhos do Sertão
“Eu a guiarei para torná-la homem, para que ela
também se torne um espírito vivente, semelhante a vós, homens. Pois toda mulher
que se tornar homem entrará no Reino dos Céus.”
(Evangelho de Tomé, logion 114)
Quem foi Maria Madalena?
Maria de Magdala.
Mulher da Galileia. Discípula de Jesus. Primeira testemunha da ressurreição.
Chamá-la de “pecadora arrependida” é reduzir sua grandeza espiritual a uma
caricatura criada por homens que temeram sua luz.
Magdala era uma
cidade portuária da Galileia. Maria provavelmente foi uma mulher culta, forte,
independente. Os evangelhos canônicos nos dizem que Jesus
expulsou dela “sete demônios” — metáfora que pode se referir a
curas profundas, talvez espirituais ou sociais. Ela então o segue com
fidelidade.
Nos evangelhos
canônicos: presença firme e fé viva
Maria Madalena
aparece:
·
Aos pés da cruz, quando todos fugiram;
·
No sepulcro, chorando em busca do Mestre;
·
E é a primeira a ver o Cristo
ressuscitado, sendo enviada por ele com uma missão:
“Vai e anuncia aos
meus irmãos...” (Jo 20,17)
A tradição a chama
de “apóstola dos apóstolos”. No
entanto, a história institucional preferiu apagar seu protagonismo e torná-la
apenas uma pecadora redimida.
Nos
evangelhos gnósticos: líder espiritual, reveladora do mistério
O Evangelho
de Maria, encontrado em
Nag Hammadi, mostra uma outra dimensão
de Maria:
·
Ela tem uma visão
espiritual após a ressurreição;
·
Revela ensinamentos que os outros discípulos não
compreenderam;
·
Enfrenta resistência de Pedro, que duvida de sua
autoridade por ser mulher.
Maria responde com
firmeza. Leví a defende. Um embate simbólico entre
o sagrado feminino e a autoridade masculina se inscreve nesse
texto.
“O Salvador a
conhecia bem. Por isso a amava mais do que a nós.” (Evangelho de Maria)
No Evangelho de Filipe, é chamada de koinônos — companheira. Ele a beijava. Compartilhava com ela
segredos do Reino. Não como privilégio afetivo, mas como reconhecimento
espiritual.
O ministério de
Maria: entre a Galileia e o Ocidente
Segundo tradições
apócrifas e orais:
·
Maria evangelizou na Síria
e na Ásia Menor;
·
Outras versões afirmam que ela foi à Gália (França), chegando a Marselha, onde viveu como mística,
em cavernas, pregando a mensagem do Cristo ressuscitado;
·
Seu ministério teria se estendido até o ano 175 d.C., segundo tradições gnósticas e registros orais.
Ela seria, então, a
primeira grande missionária do cristianismo não
imperial, sem templos, sem dogmas, sem poder — apenas com a
palavra e o Espírito.
Maria e o sagrado
feminino: símbolo da Sophia esquecida
Na tradição
gnóstica, Maria Madalena representa a Sabedoria (Sophia)
que foi exilada pelo mundo masculino do poder. Ela é ponte entre o corpo e o
espírito, entre eros e agápe, entre terra e céu.
Ela é mulher
inteira — mística, racional, amorosa e intuitiva.
O oposto da mulher fragmentada, domesticada,
silenciada pela Igreja patriarcal.
Luta,
silenciamento e resgate
A Igreja negou às
mulheres o púlpito, o altar, a voz.
Mas nunca conseguiu apagar as Marias, as anas, as luzias, as franciscas
que mantiveram viva a fé nos quintais, nas casas, nas quebradas do mundo.
Maria Madalena é a mãe espiritual da resistência feminina na fé.
Hoje, a teologia feminista, os estudos gnósticos e o movimento
de espiritualidade do sagrado feminino resgatam seu nome com honra.
A Maria do agora
No século XXI,
Maria Madalena reaparece — não como sombra do Cristo, mas como luz própria.
·
Símbolo das mulheres que se levantam.
·
Arquétipo da alma que busca a verdade interior.
·
Modelo de espiritualidade livre, plural,
reconciliada com o corpo e a terra.
✨
Conclusão: Voltar a Madalena é reencontrar a luz esquecida
Ela chorou no
jardim. Mas não por fraqueza.
Chorou porque enxergava o invisível.
Foi a primeira a ver o Ressuscitado.
Foi a primeira a ser silenciada.
Mas agora ela volta.
E com ela, volta o chamado à
sabedoria perdida, ao amor sem medo, à fé sem jaulas.
📖 Nos próximos posts: O Evangelho de Maria Madalena – análise
espiritual e textual.
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