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sexta-feira, 20 de junho de 2025

📜 Os Evangelhos Proibidos e o Cristianismo Esquecido: a Revelação da Biblioteca de Nag Hammadi

 Por Luis Moreira de Oliveira Filho

Blog: Olhos do Sertão

Entre desertos e jarros antigos, um outro Jesus emerge — mais humano, mais livre, mais próximo. E Maria Madalena, longe da imagem estereotipada de pecadora, ressurge como mestra espiritual, símbolo do feminino silenciado.

Um achado no Egito que abalou os alicerces da fé oficial

Em 1945, um camponês egípcio chamado Mohamed al-Samman fez uma descoberta que mudaria a forma como entendemos o cristianismo primitivo: em um jarro de barro enterrado próximo à cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, estavam ocultos 13 códices contendo 52 textos escritos em copta — a maioria deles considerados heréticos pela Igreja oficial.

Esses textos fazem parte do que hoje chamamos de Biblioteca de Nag Hammadi. Eles não apenas oferecem uma visão alternativa de Jesus, mas revelam um cristianismo plural, diverso, recheado de espiritualidade mística e sabedoria interior — um cristianismo que foi suprimido e perseguido ao longo dos séculos.


O que é o gnosticismo?

O gnosticismo não foi uma seita única, mas um movimento espiritual multifacetado, que floresceu entre os séculos I e IV d.C. Seus princípios centrais eram:

  • O mundo material é imperfeito e foi criado por um deus inferior — o demiurgo.
  • Há uma centelha divina dentro de cada ser humano, aprisionada no corpo.
  • A salvação vem pelo autoconhecimento (gnose) e não pela fé cega.
  • Jesus é o mestre que revela esse caminho oculto — não apenas o redentor sacrificial.

 Os evangelhos esquecidos

Entre os textos mais marcantes da Biblioteca estão:

Evangelho de Tomé

Ditos enigmáticos de Jesus que revelam um mestre espiritual:

“Se vos conhecerdes, sereis conhecidos, e sabereis que sois filhos do Pai vivente.”

Evangelho de Maria (Madalena)

Maria Madalena aparece como discípula íntima e portadora da revelação secreta de Jesus. É confrontada por Pedro, símbolo do patriarcado eclesiástico.

Evangelho de Filipe

Descreve Maria como koinônos (companheira) de Jesus. Um trecho polêmico afirma que ele a “beijava frequentemente na boca”, interpretado simbolicamente como transmissão da gnose.

Apócrifo de João, Pistis Sophia, Evangelho da Verdade

Textos que narram cosmologias alternativas, a queda de Sofia (sabedoria), o aprisionamento da alma e o caminho de volta à luz primordial.

Maria Madalena: a discípula que foi silenciada

Nos evangelhos gnósticos, Maria Madalena é:

  • Receptora de ensinamentos secretos.
  • Interlocutora direta de Jesus após a ressurreição.
  • Símbolo da sabedoria feminina e do conhecimento interior.

Ela é o oposto da imagem construída ao longo da tradição oficial — onde foi transformada em prostituta arrependida para apagar sua autoridade espiritual.

Por que esses textos foram proibidos?

Com a ascensão do cristianismo como religião oficial do Império Romano, no século IV, a Igreja buscou unificar a doutrina. Textos como os Evangelhos de Tomé, Maria e Filipe foram considerados perigosos por:

  • Valorizarem o conhecimento direto de Deus, sem mediação da Igreja.
  • Reconhecerem a autoridade espiritual de mulheres.
  • Apresentarem um Jesus que libertava em vez de dominar.

Foram suprimidos, queimados, proibidos. O cânon bíblico foi fechado, e tudo que destoava passou a ser rotulado como heresia.

Um novo olhar sobre Jesus e o cristianismo

Os evangelhos gnósticos não negam Jesus — eles o revelam de forma mais profunda:

Jesus Canônico

Jesus Gnóstico

Filho de Deus, Salvador

Mestre iluminado, guia da alma

Exige fé e submissão

Convida ao autoconhecimento

Fundador da Igreja

Revelador de sabedorias interiores

Mediador entre Deus e os homens

Espelho do divino que habita em nós

Jesus aqui não funda uma religião institucional. Ele mostra um caminho de transformação interior.

Conclusão: O que está em jogo?

Redescobrir a Biblioteca de Nag Hammadi e os evangelhos gnósticos não é apenas uma curiosidade histórica. É um convite à liberdade espiritual, à valorização da pluralidade e ao resgate do feminino sagrado. É também uma denúncia do que foi suprimido em nome do poder.

Afinal, talvez o verdadeiro “Reino de Deus” esteja mesmo dentro de nós — como já dizia o próprio Jesus em Tomé:

“O Reino está dentro de vós e também fora de vós. Quando vos conhecerdes, sereis conhecidos.”

Você também pode querer explorar:

  • 📖 Evangelho de Tomé: Sabedoria além do dogma
  • 👩‍🦰 Maria Madalena: Da sombra à luz da gnose
  • 🔥 Por que a Igreja temeu tanto esses textos?
  • 🧭 Cristianismo e Gnosticismo: Conflito ou Complemento?

 

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