Translate / Tradutor

domingo, 10 de janeiro de 2010

Uma boa análise do filme: Lula, o filme de Fábio Barreto.


 Terra Magazine

Lula, o filme de Fábio Barreto



Cena de "Lula, o filho do Brasil", o polêmico filme de Fábio Barreto

Antonio Valverde

"Eu não sei bem o que seja
Mas sei que seja o que será
O que será que será que se veja
Vai passar por lá"

(Chico Buarque - Linha de Montagem)

Se é correto afirmar que o cinema pode educar a sensibilidade, o filme "Lula, o filho do Brasil" confirma a premissa por ser impactante pela construção realista do personagem título. Além de manter, sem concessões, a tensão narrativa. O lastro autobiográfico de Lula e o recurso à história recente do movimento dos metalúrgicos do ABCD dão sustentação à narrativa, de modo a reforçar o realismo da abordagem. A tensão latente deriva também dos diversos filmes que o antecederam e que se encontram, de certa forma, incorporados nele. Assisti-lo é como rever outros tantos correlacionados às condições do operariado, num salto para além daqueles. Afinal, o movimento dos trabalhadores ensaiou sua emancipação política entre os anos 70 e 80, do século passado, na região brasileira em que mais claramente delineou-se a contradição capital-trabalho.

O filme transpôs para a tela o livro homônimo de Denise Paraná. A autora, fundada no conceito de "cultura da pobreza" criado pelo antropólogo norte-americano Oscar Lewis, resultado de pesquisas nas cidade do México, Porto Rico e Nova York, e em movimento para o conceito de "cultura de transformação", opera com maestria a interpretação teórica do fenômeno Lula, desde sua relação com os pais, calcada na conduta ética, até a emergência como líder sindical de maior altura política do Brasil contemporâneo. A passagem do universo da ética tradicional filtrada, sobremaneira pela mãe Dona Lindu, para os contornos da ética familiar, aos limites da ética da responsabilidade nas tomadas de decisões de Lula frente os sindicalistas e os políticos profissionais, é exemplar. Em outras palavras, o como é possível agir politicamente sem perder de vista os valores e os princípios que nortearam a formação ética basilar até o desenvolvimento pleno da virtù política. Assim, o passo mais complexo foi o do entrelaçamento entre a ética da responsabilidade e a explicitação dos conflitos políticos em pauta na luta operária dos sindicalistas paulistas.

No filme, os nexos da conscientização ética e da ação política do personagem central é muito bem explorado, sem didatismos. O mesmo ocorre ao mostrar o movimento dialético de superar conservando, utilizado por Lula para aos poucos desalojar o pelego Feitosa, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, de sua posição, aparentemente intocável e de bem com a política repressiva do Estado, na década de 70. Como hipótese, talvez seja este o grande segredo do sucesso político do Presidente Lula: superar conservando, sem perder de vista o viés social da decisão política.

Em debate acerca do filme "Lula, o filho do Brasil", realizado no Auditório do Jornal O Globo, no Rio de Janeiro, no dia 09 de dezembro passado, o diretor Fábio Barreto enquadrou o filme sob o gênero épico melodramático. Disse também que parte considerável da concepção da obra debita-se à escola cinematográfica do neo-realismo italiano, particularmente ao filme "Roma, Cidade Aberta" (1946), de Roberto Rossellini. Nele, as novidades eram as filmagens em ambientes abertos, a dura realidade da miséria, do desemprego, a cidade sob o domínio nazista e atores praticamente desconhecidos, salvo a atriz Anna Magnani. No filme de Barreto, de certa forma, todos esses elementos estão presentes. A atriz Glória Pires, no papel de Dona Lindu, é o grande destaque do filme. As tomadas em antigas fábricas da Mooca, como palco da ação política dos trabalhadores nos anos 60, e no Estádio da Vila Euclides, cenário das assembléias, em que eram tomadas as decisões acerca dos rumos das greves dos metalúrgicos, correspondem aos ambientes abertos do filme de Rossellini.

O filme mantém um diálogo interno com uma série de outros filmes, particularmente documentários acerca da classe operária e da migração de nordestinos para o Sul do país. O único deles, lembrado por Barreto no aludido debate, foi "O Grande Momento", de Roberto dos Santos (1957), considerado precursor do Cinema Novo. O filme trata das vicissitudes do casamento de um operário da Mooca, bairro paulistano, obrigado pelas circunstâncias a vender o único bem disponível, a bicicleta, para custear uma festa modesta de núpcias. Gianfrancesco Guarnieri, jovem, faz o protagonista em apuros financeiros e desencanto. O outro filme contido no de Barreto é "I Compani", de Mario Monicelli (1963). Marcello Mastroiani vive o professor desempregado Sinegaglia, um aristocrata decadente, que em visita a fabril Turim, ajuda os operários de uma indústria têxtil a lutar por melhores condições de trabalho, no século XIX. É também incontornável o rememorar de "Vidas Secas", de Nelson Pereira dos Santos (1963), em que retirantes nordestinos cumprem a sina do êxodo rural, saltado das páginas do romance de Graciliano Ramos. As cenas iniciais de "Lula, o filho do Brasil", relembram as de "Vidas Secas", naquelas em Átila Iório, no papel de Fabiano, deixa o sertão com a família, acompanhados até certa altura da cadela Baleia. Ainda contido no filme de Barreto encontra-se "Eles não usam Black-tie", de Leon Hirszman (1981), adaptação e atualização da peça teatral de G. Guarnieri, estreada no dia 22 de fevereiro de 1968 no Teatro de Arena, em São Paulo. Durante uma paralização Tião, filho de um velho militante operário, fura a greve alegando a proximidade do casamento para decepção do pai.

O documentário inaugural a retratar os nexos entre o fluxo migratório do Nordeste para o Sul, a par da integração do migrante nordestino na cidade mais nordestina do Brasil, foi "Viramundo", de Geraldo Sarno (1965), com a colaboração dos sociólogos Octávio Ianni, Juarez Brandão Lopes e Cândido Procópio F. de Camargo. A via crucis do migrante passava pelo desemprego, miséria, caridade e misticismo.

Alguns documentários acerca do movimento operário do ABCD paulista também estão contidos no filme de Barreto. O primeiro deles é "Braços Cruzados, Máquinas Paradas", de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo (1978). Em duas versões complementares no tempo, 1979 e 1992, "ABC da Greve", de Leon Hirszman, e "Greve", média-metragem, de João Batista de Andrade (1979). Resta saber se o importante documentário "Linha de Montagem" (1982), de Renato Tapajós, filmado entre 1978 e 1981, e "Peões", de Eduardo Coutinho, filmado entre 1979 e 1980, lançado em 2004, também foram assimilados.

Se o documentário é sempre um recorte histórico valioso, temporal e datado, o filme viaja no tempo para além do aspecto circunstancial. É o que ocorre com o filme "Lula, o filho do Brasil" feito para "cair no mundo" como diz o personagem título à mãe, ao início do filme. Em movimento de estranhamento e aproximação, na perspectiva da educação da sensibilidade, assistir "Lula, o filho do Brasil" é como assistir a outros tantos que, consciente e inconscientemente, foram incorporados a ele, como a melhor síntese de todos os outros. Somente com vagar, sem pré-juízos nem preconceitos, é possível perceber tais remissões e síntese. Afinal, os versos iniciais de Chico Buarque profetizavam parte da história brasileira atual.

Antonio Valverde é professor de Ética e Filosofia Política do Departamento de Filosofia da PUC-SP e Professor da cadeira Filosofia e Dilemas Éticos da EAESP-FGV. Co-Editor da Revista Aurora.

Nenhum comentário: