“O sertão é dentro da gente.” Guimarães Rosa
“Todas as guerras são guerras sujas. Mas umas são mais sujas que outras.” Eduardo Galeano
Numa segunda noite de guerra total
entre Irã e Israel, o que ruía não era apenas a arquitetura das cidades, mas os
pilares da humanidade. As imagens de Tel Aviv e Haifa em chamas, o colapso do
tão celebrado “Domo de Ferro”, os destroços de Teerã cobertos de poeira e
corpos, revelam o que já não se consegue esconder: o mundo não está em paz, e
as máscaras diplomáticas caíram.
Mas o que essa guerra tem a ver com o
sertão? O que tem a ver com o semiárido, com nossas escolas, com os olhos dos
jovens que olham pro céu na esperança de uma chuva e não de um drone?
Tem tudo a ver.
Essa guerra, como tantas outras, não é
feita só de foguetes e discursos. Ela é feita de interesses ocultos, de indústrias que lucram com o
medo, de impérios que negociam a paz enquanto armam o ataque. O que vemos hoje é uma operação não apenas
militar, mas simbólica: um ataque à inteligência do mundo, à sensibilidade dos
povos, à esperança de justiça global.
A guerra que não é só deles
Dizem que é entre Irã e Israel, mas
basta puxar a cortina que se vê: os Estados Unidos estão lá, de botas sujas, como sempre, plantando
incerteza em solo alheio. Não negociavam em
boa-fé com os iranianos, como muitos imaginavam. Estavam apenas distraindo, enganando,
preparando o bote, como quem acende a fogueira enquanto finge estar molhando a
terra.
Enquanto isso, empresas trilionárias
que produzem tanques, mísseis e softwares de espionagem veem suas ações subirem
nas bolsas. A guerra virou
investimento. A paz, um entrave nos lucros. Não há disfarce possível. Já não se trata de religião ou
ideologia. Trata-se de poder, controle e dinheiro.
O sertão que vê e sente
E aqui, nos sertões do mundo, nós
vemos. Com olhos que aprenderam a enxergar a vida até na queimada. Nós sabemos
o que é ter o mundo nos ignorando, como Gaza é ignorada. Sabemos o que é ter
nossa dor reduzida a números e gráficos. Sabemos, sobretudo, o que é sobreviver num mundo que já decretou o fim
de quem é considerado descartável.
Mas o sertão não aceita esse fim. Ele
resiste. Ele floresce em meio às pedras. Ele canta quando tudo silencia. E é
por isso que os olhos do sertão precisam olhar para essa guerra e dizer: basta.
A necropolítica e os corpos que somem nos escombros
Essa guerra revela um projeto mais
sombrio: o controle da vida
por meio da morte. Uma
necropolítica global que decide quem deve viver e quem será apagado. Os corpos
palestinos, sírios, libaneses, iranianos — e agora também israelenses — vão
sendo acumulados sem nome, sem história, sem dignidade. A mídia filtra. A
diplomacia finge surpresa. E os que lucram, sorriem em silêncio.
Precisamos de outra lógica: não mais tanques, mas ternura
O mundo está doente de guerra. A
racionalidade que nos trouxe até aqui falhou. É tempo de outra coisa. De uma racionalidade da vida, da escuta, da
justiça. De uma política que cuide, e não que destrua. De um planeta onde o
semiárido ensine o planeta a viver com o pouco, sem destruir o todo.
Enquanto eles derrubam cidades, nós precisamos erguer pontes. Enquanto eles jogam bombas, que joguemos sementes. Enquanto eles
espalham medo, que espalhemos palavras, artes, sonhos, rebeldias ternas.
Porque o sertão não quer ver mais guerras. Já viu seca demais, dor
demais, abandono demais. O sertão quer ver justiça. Quer ver o mundo aprendendo
a viver com o mundo Para refletir, compartilhar, resistir.