Reforma Administrativa: modernização ou bomba contra o serviço público?
Uma
proposta de reforma administrativa, que será apresentada nesta semana pela
Câmara dos Deputados, prevê alterações significativas no serviço público,
incluindo a aplicação imediata de novas regras para servidores já em atividade.
O que muda
Entre as principais mudanças está o fim das férias de 60 dias por ano para juízes e promotores, que passarão a seguir a mesma regra dos demais trabalhadores: 30 dias anuais. A medida, que quebra um tabu da reforma anterior do governo Bolsonaro, visa reduzir privilégios e promover igualdade no setor público.
O
relator da proposta, deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), destacou em entrevista que
o projeto contém cerca de 70 medidas divididas em quatro eixos: governança e
gestão, recursos humanos, transformação digital e combate a privilégios. Além
das férias, a reforma aborda supersalários, avaliação de desempenho, progressão
de carreira e contratações temporárias.
O
texto prevê ainda a eliminação de benefícios como a conversão de férias não
gozadas em pagamento retroativo, além de estabelecer critérios mais rígidos
para verbas indenizatórias. Também institui a avaliação individual de
servidores, que passará a influenciar a progressão na carreira, e amplia a
possibilidade de contratações temporárias de até cinco anos, inclusive em
municípios pequenos, com garantias limitadas.
O que está nas entrelinhas
Essa
proposta precisa ser interpretada não só pelo que está explícito, mas também
pelo que está nas entrelinhas. Embora não fale em acabar com a estabilidade
formal, ela cria regimes paralelos de vínculos temporários, que competem com o
servidor estável. Na prática, abre-se caminho para a precarização e a
terceirização indireta do serviço público.
Além
disso, a narrativa do “fim dos privilégios” cumpre um papel simbólico
estratégico. Coloca em evidência férias e supersalários de juízes e promotores,
que são impopulares, mas esconde os efeitos mais profundos: flexibilização de
vínculos, meritocracia empresarial dentro do serviço público, fragmentação do
funcionalismo e enfraquecimento gradual da estabilidade.
Comparação com a PEC 32 de Bolsonaro
Comparando
com a PEC 32 do governo Bolsonaro, vemos diferenças importantes. A PEC 32 era
frontal, agressiva e impopular: atacava diretamente a estabilidade, criava
novos regimes de contratação e ampliava cargos de livre nomeação. Foi rejeitada
pela mobilização social.
Já a
proposta atual é mais sofisticada: não extingue a estabilidade, mas a esvazia
pela via das contratações temporárias e da avaliação de desempenho, embalando
tudo no discurso de modernização e combate a privilégios.
Impacto político-eleitoral
O
impacto político é evidente. O funcionalismo público é majoritariamente
lulista. Professores, enfermeiros, técnicos, servidores administrativos e
trabalhadores de base foram linha de frente contra Bolsonaro e sustentaram a
vitória de Lula em 2022. Se o governo embarcar em uma reforma que os fragiliza,
corre o risco de desmobilizar sua base, não em favor de Tarcísio, mas pela via
da abstenção e da perda de entusiasmo.
O
centrão e a Faria Lima sabem disso. A reforma é, na prática, uma bomba jogada
no colo do governo Lula. Se apoiar, o governo perde base social; se rejeitar, é
acusado de proteger privilégios; se segurar, sofre ataques do mercado. E quem
ganha em todos os cenários é Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, já
visto como candidato da “modernização” pela Faria Lima.
Lula, o mercado e o povo
Aqui
está o ponto central: Lula não tem apoio do mercado e nunca teve. O mercado
apenas o tolera porque sabe que ele garante estabilidade mínima. Mas a Faria
Lima já escolheu seu candidato, e esse candidato é Tarcísio. O plano é simples:
usar pacotes de maldades, como essa reforma administrativa, para derreter o
governo Lula até 2026 e abrir caminho para um nome próprio.
E
Lula sabe disso. Ele já disse: “eu não tenho voto em banqueiro, eu tenho voto
no povo”. O povo não “come mercado”, destaco ao pensar um momento importante da
querida e saudosa professora Conceição Tavares: “o povo não come PIB”. Eu
reforço, o povo vive de feijão e carne no prato, de escola pública, saúde no
posto, universidade para os filhos, aposentadoria no INSS. Esse é o pacto
social que elegeu Lula.
Por
isso, Lula não pode trair sua base. Ele não foi eleito para desmontar o serviço
público, mas para fortalecê-lo. A saída política mais coerente é segurar o
texto no Congresso, negociar apenas pontos simbólicos como o fim das férias de
60 dias e dos supersalários, e barrar toda tentativa de precarização de professores,
técnicos e servidores de base.
Três cenários possíveis
Em
termos estratégicos, há três cenários possíveis:
Apoiar
a reforma – significaria trair sua base;
Rejeitá-la
frontalmente – traria o peso da mídia e da Faria Lima;
Segurar
e adiar, mexendo só nos pontos simbólicos – é o caminho mais viável, porque
mantém o apoio popular e adia a bomba para depois de 2026.
Conclusão
No
fim, o que está em jogo é mais do que uma reforma administrativa: é o futuro da
relação entre Estado e sociedade no Brasil. É escolher entre um Estado
precarizado, que atende ao mercado, ou um Estado fortalecido, que serve ao
povo. E Lula já disse a quem deve sua eleição: não à Faria Lima, mas ao povo
brasileiro.
📖 Fonte: reportagem da Folha de S.
Paulo, disponível em: Reforma administrativa valerá para atuais servidores e acabará
com férias de 60 dias, diz deputado
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