Ceará: histórias de resistência, migração e memória
No Ceará, muitas histórias permanecem apagadas, embora sejam fundamentais para compreendermos a formação do nosso povo. Sou filho de agricultores e cresci em um tempo em que meus pais aprenderam matemática e economia na escassez: dividindo, somando, multiplicando… talvez diminuir fosse o menos praticado em suas vidas.
Minha família guarda lembranças que atravessam o país. Tive avós que foram soldados da borracha na Amazônia e tios que desapareceram por lá. Recentemente, um parente padre, que mora na Alemanha, entrou em contato com meu irmão após realizar um teste genético. Meu irmão e minha mãe fizeram o exame e, ao acessar os registros, descobriram uma extensa família em Jaguaruana, nossa cidade de origem. A alegria maior veio ao constatar que nossa tradição católica permaneceu viva em padres, freiras e outros familiares, um legado que de alguma forma também seguiu o parente que realizou o teste.
Jaguaruana ganhou destaque nacional em 1997, quando notícias mostraram famílias passando fome. Esse episódio motivou visitas de políticos, como FHC e Lula, em pré-campanha eleitoral para 1998.
A fome como tema proibido e a memória do sertão
A fome no Brasil sempre foi um tema sensível, muitas vezes silenciado ou negligenciado. O médico sanitarista e escritor Rodolfo Teófilo denunciou, no final do século XIX e início do XX, a miséria e a fome no Nordeste, registrando em seus livros a urgência de políticas públicas e a invisibilidade das populações em sofrimento. Décadas depois, o médico e geógrafo Josué de Castro, em obras como Geografia da Fome, consolidou a fome como um problema estrutural, resultante de desigualdade, seca e negligência política.
No campo literário e jornalístico, Carolina de Jesus, em Quarto de Despejo, afirmou que “o presidente da república deveria ser uma pessoa que passou fome”, destacando que a experiência da escassez e da vida sertaneja em tempos de adversidade é fundamental para compreender a realidade social e formular políticas que atendam ao povo mais vulnerável.
A história da migração cearense, muitas vezes forçada pela seca e pela vulnerabilidade hídrica, é uma narrativa de coragem e esperança. Famílias numerosas buscaram sobrevivência nos mais distantes lugares do Brasil, principalmente no Sudeste, Norte e Nordeste. Podemos dizer que quase todo brasileiro, de alguma forma, carrega no DNA uma memória ancestral de resistência à escassez do semiárido.
Como observa o professor de Geografia da UECE, Caio Lóssio Botelho:
“No Ceará, o sertão despeja no mar.”
Não se trata apenas de migração pelo sertão; há também um deslocamento em direção ao litoral, uma tentativa de resistir e reexistir.
Tenho orgulho de estar ao lado de figuras históricas como Patativa do Assaré, Beato José Lourenço, Antônio Conselheiro e o Dragão do Mar, cujas histórias ainda precisam ser resgatadas e valorizadas.
Entre elas, destaco o médico cearense Alves Ribeiro, autor do livro
Manual
da Parteira, ou Pequena Compilação de Conselhos na Arte de
Partejar, Escrita em Linguagem Familiar,
que compartilhou saberes essenciais sobre saúde e comunidade. A matéria da BBC, assinada pelo professor André Biernath, mostra como esses relatos são fundamentais para a memória cultural do Ceará, apresentando o resgate histórico realizado. A
matéria da BBC mostra como esses relatos
são fundamentais para a memória cultural do Ceará. Vale conferir a matéria na íntegra do professor André Biernath.
O Ceará é, portanto, um território de histórias profundas de resistência, migração e solidariedade. Resgatar essas narrativas é valorizar o passado, compreender o presente e inspirar gerações futuras. A fome, a escassez e a superação dessas adversidades não são apenas temas históricos, mas também elementos que moldaram a identidade e a memória coletiva do nosso povo.
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