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terça-feira, 3 de maio de 2016

Ivana Bentes e o roteiro prévio do golpe jurífico-midiático. Vale conferir o texto na íntegra.

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Da Revista Fórum extraio um dos mais profundos textos que já li sobre a "crise política" fabricada e instrumentalizada como parte estratégica do golpe jurídico-midiático. 

Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura afirma que “não podemos falar apenas de erros do governo”, porque “as esquerdas também erraram”. Ela comenta especificamente o racha das esquerdas desde 2013, onde “movimentos e grupos numa franca crise de protagonismo e, enfraquecidos e autofágicos, atiraram e criminalizaram parceiros do mesmo campo que estavam nas ruas e nas redes” -

Por João Vitor Santos e edição de Patricia Fachin, do IHU On-Line

A mídia e o jurídico impuseram uma operação de guerra simbólica e de linguagem que paralisou a todos”, diz Ivana Bentes ao comentar a repercussão da atual crise política instalada no país. Para ela, esta operação deu curso a um “golpe jurídico-midiático”, que pode ser compreendido a partir da “articulação de poderes com capacidade de construção de narrativas de alto impacto e que precipitam, aceleram e conduzem o desenrolar dos acontecimentos segundo um roteiro prévio”.
Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, Ivana Bentes frisa que a “gestão da informação”, tal como tem sido feita pela grande mídia, tem produzido um “efeito corrosivo”, inclusive fomentando o “acirramento dos ânimos”, marcado por posições divergentes, e a “neutralização do pensamento crítico”.

Apesar de a grande mídia corroborar com “vazamentos seletivos” e “investigações seletivas”, a pesquisadora lembra que “uma nova ecologia midiática emerge balançando as redes e disputando as narrativas com uma Mídia-Estado”.

Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura – MinC, Ivana Bentes pontua ainda que “não podemos falar apenas de erros do governo”, porque “as esquerdas também erraram”. Ela comenta especificamente o racha das esquerdas desde 2013, onde “movimentos e grupos numa franca crise de protagonismo e, enfraquecidos e autofágicos, atiraram e criminalizaram parceiros do mesmo campo que estavam nas ruas e nas redes, como vimos acontecer em 2013 com o Fora do Eixo e Mídia Ninja, por exemplo, criminalizados pela esquerda e pela direita”.

Ivana Bentes comenta também o “fascismo” em curso, que “se instala pela direita e pela esquerda”, e a “indignação difusa, ‘contra tudo que está aí’”, ressaltando que, apesar disso, há aí “uma aliança espúria” da “Fiesp, movimentos de classe média, mídia, PSDB/PMDB/Rede, que viram no golpe jurídico-midiático a possibilidade de interromper um processo na marra, desqualificar um projeto de Brasil, destruir um grupo político, combatendo seletivamente a corrupção e instaurando um Estado de Exceção”.
Ivana Bentes é professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura – MinC. É autora de Mídia-Multidão: Estéticas da Comunicação e biopolíticas (Editora Mauad X, 2015).
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como analisa o papel que vem sendo exercido pela grande mídia no atual momento de estado de crise?

Ivana Bentes – Em um primeiro momento, a mídia e o jurídico impuseram uma operação de guerra simbólica e de linguagem que paralisou a todos, pela sua velocidade. Podemos falar da instauração de uma ditadura da velocidade, que nos mergulhou em um transe midiático, uma fábrica de fatos, de crises e de instabilidade, com a construção de consensos prêt-à-porter. Essa Mídia-Estado, hipnótica e repetitiva, cria as condições emocionais, cognitivas, para construir um processo de demonização, redução e aniquilamento do outro, apresentando-o – psicologia de massas e produção de comoção – como o “inimigo” a combater. Não se trata de jornalismo, mas de construção de consenso.

Quando dizemos que está em curso um golpe jurídico-midiático, é nesse sentido de uma articulação de poderes com capacidade de construção de narrativas de alto impacto e que precipitam, aceleram e conduzem o desenrolar dos acontecimentos segundo um roteiro prévio.
A velocidade e urgência do jurídico e da mídia no processo de impeachment da presidente Dilma deixou claro como a gestão da informação produz um efeito corrosivo, de acirramento dos ânimos e neutralização do pensamento crítico. Num primeiro momento vimos essa gestão alucinatória da informação, como moeda de produção de crise. O vazamento contínuo e a conta-gotas de informações descontextualizadas, por exemplo, emerge nesse processo como uma das formas de corrupção da justiça.

Não existe justiça em tempo real, mas linchamento público. E há algo de profundamente errado com a velocidade que se produziu e divulgou na mídia fatos, factoides, denúncias e delações diárias, de forma serial, naturalizando-se os vazamentos de dados que deveriam correr protegidos pela Justiça, naturalizando-se a devassa da privacidade, naturalizando-se um justiçamento midiático travestido de “liberdade de expressão” e investigação jornalística.

A novelização da crise

A roteirização, espetacularização e novelização da crise política no Jornal Nacional e nas manchetes de jornais e revistas da grande imprensa escancaram a crise da mídia no Brasil, com seu devir-partido, atuando como uma das grandes forças de desestabilização política e de construção de um cenário apocalíptico, em que um partido e um campo (o PT e os movimentos de esquerda, um ex-presidente e uma presidente, Lula e Dilma) foram demonizados e apresentados como inimigos públicos número 1.

Vimos, no Brasil, com a construção midiática do impeachment, a primeira campanha de destruição massiva de um grupo político, e numa velocidade inimaginável, o apagamento de um capital simbólico acumulado em 13 anos e que já vinha sendo corroído por outros fatores. Essa crise trouxe também para a cena, além da campanha midiática, funcionando como um horário eleitoral extra, o uso das técnicas da publicidade. Uma operação que teve um pato de banheira gigante como símbolo de indignação de um grupo, o empresariado, patrocinada pela Fiesp, e publicidade milionária paga a favor do impeachment em todos os grandes jornais. Uma operação casada de procedimentos jurídicos, midiáticos e publicitários.

Estratégias da mídia

Destaco três estratégias utilizadas pela mídia. A primeira é a construção de peças seletivas de difamação do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma com um fulminante ataque moral e métodos de difamação serial; a “lavagem simbólica” de figuras indefensáveis como Eduardo Cunha; e a reversão do negativo, a traição, a falta de lealdade, o oportunismo, em positivo, com a construção de respeitabilidade para o casal Michel e Marcela Temer.

A segunda estratégia midiática foi a polarização: a política pautada pela lógica de torcidas, da intolerância e pelo ódio, a retórica do “nós” e “eles”. Nós os cidadãos, os indignados, os espontâneos, e eles o militantes, os vermelhos, os “profissionais” da política, os corruptos. Essa polarização redutora, já experimentada nas eleições de 2014, chegou ao seu cúmulo com os infográficos que apresentavam a esplanada dos Ministérios de Brasília dividida em duas “alas” (contra e pró-impeachment) por um muro, na votação da admissibilidade do impeachment na Câmara dos Deputados em 17 de abril.

O muro que separava os cidadãos contra e pró-impeachment foi, simbolicamente, erguido por presidiários, deixando explícito o papel desses homens pobres e negros que erguem o cenário para uma disputa a que estão “alheios”, ou da qual as periferias e a chamada classe C também estiveram ausentes. Foi o que vimos na composição dos protestos pró-impeachment iniciais: uma multidão branca, com poder aquisitivo, vestindo verde e amarelo e invocando a moral e os bons costumes para legitimar, com o calor das ruas, um processo artificial.

O que vimos na mídia e nas ruas em um primeiro momento foi a redução da política, um discurso apocalíptico, over polarizado com a incitação ao ódio e à intolerância, com grupos pedindo a volta da ditadura, dos militares, uma classe média ressentida e uma extrema-direita comportamental que foi motivo de chacota e acabou perdendo protagonismo.

As manifestações conservadoras criaram um ambiente não simplesmente para legitimar o impeachment, mas para ações de perseguição aos movimentos sociais: pedidos de prisão pelo PSDB e DEM contra Guilherme Boulos, liderança do MTST, assassinato de lideranças do MST e indígenas, agressão aos “vermelhos” e emergência de devir fascista.

A demonização do “outro” foi materializada nesse muro metálico que dividiu a Esplanada dos Ministérios em duas, delimitando territórios em uma guerra de torcidas midiática que respondia a um comando de cenarização, um “politicódromo” para transmissão ao vivo pela TV. O cenário foi montado para um espetáculo de rua, de comoção e midiatização de um processo político tendo como combustível um discurso simplificado e seletivo em torno da corrupção.

“Nós” os indignados e “eles” os corruptos, essa é a operação que vem sendo construída no longo prazo e que achávamos que tinha chegado ao paroxismo nas eleições de 2014. Mas foi agora que se consumou como golpe político. Nesse momento de crise econômica e insatisfações difusas que a demonização do outro encontrou eco em uma classe média conservadora, que desde 2014 assumiu e ressignificou como forma de distinção própria o discurso do racismo, do preconceito contra minorias, a defesa de privilégios de classe e grupos, tudo isso travestido em combate à corrupção e ao petismo.

E, por fim, como terceira estratégia, destaco como o jornalismo e a publicidade trabalharam com comandos massivos, onde a informação é apenas o mínimo estritamente necessário para a emissão, transmissão e observação das ordens consideradas como comandos, pois essas informações trazem pressupostos implícitos, não discursivos. Nesse sentido cada edição de telejornal, cada capa de revista, cada manchete, cada roda de conversa com analistas, cada editorial, podem ser analisados como atos de comando e atos de fala.

O Retorno do real e o Colapso Ético

Entretanto, algo saiu do controle. A transmissão ao vivo e em TV aberta da votação do impeachment na Câmara dos Deputados em 17/04 arrebentou em parte essas polarizações com a longa, pedagógica e reveladora sessão de votação do impeachment na Câmara dos Deputados, que repercutiu como uma bomba entre os indignados e na imprensa internacional e por um momento dissolveu polarizações, mostrando que a frágil democracia brasileira não se sustenta sem uma profunda reforma política.

O que vimos na Câmara dos Deputados foi o “choque do real”, transmitido sem cortes e comandos, com a entrada em cena dos excelentíssimos senhores deputados votantes do impeachment. E, como diria a psicanálise, assistimos ao retorno do real, com a exposição das entranhas de um Congresso com representantes indignos do lugar que ocupavam.

Se falamos de crise de representação, a sessão de votos do impeachment na Câmara foi o retrato desse colapso ético. Sabíamos que o Congresso era conservador, fisiológico, um retrato de um sistema político corrompido, mas na votação fomos testemunhas de um flagrante delito, a baixa densidade da democracia, os reais interesses e horizontes dos parlamentares, como suas vidas privadas parasitam o espaço público.

Toda a crise de representação, que já vinha sendo tematizada desde Junho de 2013, emergiu na sua crueza, brutalidade, horror. Sabíamos todos que esse é um Congresso conservador e despreparado, mas os discursos dos deputados, dedicando seus votos a favor do impeachment, da família, das esposas, filhos e netos; os valores que emergiram ali, com homenagem a um torturador da ditadura militar, revelou um parlamento amesquinhado e desprezível.

O cuspe de Jean Wyllys

Esse choque do real pode ser traduzido no gesto do Deputado Jean Wyllys, que direcionou uma cusparada no também deputado Jair Bolsonaro, depois de ser agredido verbalmente por sua homossexualidade assumida e suas pautas progressistas. Não se trata de uma anedota ou amenidade!

O sentimento de asco e rejeição aos políticos é um dado decisivo nesta crise, e o cuspe de Jean Wyllys logo se tornou um meme nas redes sociais, assim como várias das falas reveladoras dos deputados ficaram eternizadas em looping, em memes e vídeos irônicos. São fatos simbólicos, para além de qualquer etiqueta ou moralidade.

O fato de a Câmera dos Deputados ser presidida por Eduardo Cunha, corrupto e corruptor, acusado de uma infinidade de crimes, e frequentada por deputados despreparados, versados em discursos primários de enaltecimento da pátria e da família, centenas de “Odoricos Paraguaçu” caricaturais, foi reveladora de um sistema político em estado terminal.

Vimos uma minoria de parlamentares, toda a bancada do PSOL, PCdoB, PT, nomes avulsos de pequenos partidos, trazendo alguma racionalidade e coerência neste processo, mas a sessão de votação explicitou o que chamamos de golpe: parlamentares de partidos que perderam as eleições, parlamentares que respondem pelos mais diversos delitos, julgando uma Presidente da República que não cometeu crimes.

IHU On-Line – E como a mídia alternativa vem se movimentando nesta crise? A mídia alternativa ainda representa um olhar diferenciado sobre os fatos, como representou à época de seu surgimento?

Ivana Bentes – Uma nova ecologia midiática emerge balançando as redes e disputando as narrativas com uma Mídia-Estado que quer substituir os poderes, as ruas e o próprio Estado. De um lado, temos forças arcaicas e conservadoras que nunca saíram de cena e que emergem no momento que é criado um ambiente sociomidiático acolhedor. Por outro, vemos uma multidão de novos atores políticos, movimentos sociais e culturais, midialivristas fazendo essa disputa do sensível. Porque a batalha e a disputa é nas ruas; no Congresso, a disputa é jurídica, mas, sobretudo, memética e midiática.

Ecologia midiática

Acho importante distinguir três momentos nessa ecologia midiática: Junho de 2013, as eleições de 2014 e a crise em torno do impeachment em 2015/2016. Um dos fenômenos mais impactantes das Jornadas de Junho de 2013 foi a explosão dos coletivos, redes, agentes, iniciativas de midiativismo.
Um enxameamento de centenas de novas iniciativas de mídia livre em todo o Brasil que disputaram e construíram o sentido das manifestações de 2013 de forma ativa e inédita, a ponto de não mais se distinguirem da própria força das ruas, uma mídia orgânica, quente, afetiva, posicionada, como a Mídia Ninja, que encarnou e expressou uma indissociabilidade da política com os afetos em contraste com o ambiente “profissional”.

Em 2013, os midiativistas decifraram o componente afetivo, intempestivo das redes, com as emissões ao vivo, stremmings, a viralização de memes, fotografias, posts, textos, cartazes, produzidos pelos próprios manifestantes, funcionaram como operações de embate, disputa narrativa, processos de subjetivação, que inscrevem o corpo e deixam os rastros de centenas de cinegrafistas ativistas, fotógrafos “amadores” nas imagens. Ali se constituiu um fluxo, uma onda, um enxame, uma mídia-multidão em processo que pode ser ativada a qualquer momento.

Eleições presidenciais

Já em 2014, nas eleições presidenciais, o que vimos foi uma profissionalização e robotização desses processos, com a entrada dos marketeiros de campanha, com a criação de páginas e perfis fakes, uso de robôs e replicadores de conteúdos que esquentaram as redes e também produziram e reproduziram o clima de polarização, ódio, disputa violenta que víamos na grande mídia e em toda a disputa eleitoral.

Se Junho de 2013 produziu a Mídia Ninja e o Movimento Passe Livre – MPL, nas eleições de 2014 as redes sociais foram o ambiente de reconfiguração do campo conservador, de forma quase paródica, com a consolidação do Movimento Brasil Livre – MBL, popularização de canais e páginas como a TV Revolta e Revoltados on-line, que deram visibilidade e construíram uma identidade de direita, com forte propagação de informações, conteúdos, comandos, vindos da grande mídia, mas também dos novos ideólogos da revolução conservadora.

Campanha do impeachment

A campanha do impeachment é uma combinatória de processos que já estavam presentes em 2013 e 2014. Um junho de viés conservador, com um nível anômalo de comandos jurídicos, midiáticos, parlamentares, que alimentam as ruas e as redes, de tal forma ostensivos que se configuraram como um golpe, produzindo vítimas e golpeados. A disputa da palavra golpe para definir o pedido de impeachment foi decisiva para a narrativa das esquerdas, e é significativa do fato que vivemos em um semiocapitalismo, um regime de disputa semiótica, de signos.

A configuração de golpe parlamentar, golpe jurídico-midiático, golpe branco, a utilização da memética de Junho de 2013, do #naovaitercopa para o #naovaitergolpe, a ampliação da disputa narrativa para o #vemprademocracia têm sido decisivas na construção de uma contracomunicação como contragolpe. Mas além de uma mídia posicionada como a Mídia Ninja, os Jornalistas Livres, a Revista Fórum, o Jornal GGN, temos uma ampliação no campo do jornalismo independente (ver o ótimo mapeamento da Agência Pública) e a entrada de serviços de mídia como o “fact-checking”, da Agência Lupa, com as checagens, de forma sistemática, do grau de veracidade das informações que circulam pelo país.

A Agência Lupa fez um “live-tweeting” da votação do impeachment na Câmara dos Deputados, que mostrava, em tempo real no Twitter, as ocorrências judiciais envolvendo cada votante. Dos 513 deputados com direito a voto na sessão do domingo 17/04, ao menos 299 acumulam 1.130 “ocorrências judiciais”, segundo a Lupa.

O resultado, além de assustador, dava consistência, números e dados, para o sentimento difuso de horror e rejeição diante dos representantes do povo brasileiro no Congresso. O “não me representa” saindo do campo da abstração e produzindo um desconforto generalizado, inclusive entre os defensores do impeachment.

Outro fato a se destacar, nessa nova ecologia midiática, são as análises a partir da mineração de dados, palavras, agentes nas redes sociais, que nos arrancam do determinismo e do binarismo. Análises produzidas por pesquisadores e laboratórios como o LabiC da UFES, coordenado por Fábio Malini, que mostram, por exemplo, nas manifestações do dia 18 de março, contra o impeachment, mas também nas ruas verde-amarelas do dia 13, a emergência dos manifestantes “não-alinhados” às dinâmicas dos partidos que fazem a disputa eleitoral (PT e PSDB).
A pergunta a partir dessa mineração coloca a questão que nos interessa desde 2013: “quem é o ‘manifestante’ que engrossa o coro, transforma os atos em massivos, e que possui expectativas que estão além das disputas de poder entre o PSDB e o PT?”.

Ressignificação da esquerda

Mais uma vez poderemos encontrar algumas respostas na iconografia das manifestações, nas fotos e vídeos com uma estética multitudinária e disruptiva dos grupos contra o impeachment. Estética que vai contaminando as redes e ruas. Uma iconografia que passa do vermelho para uma paleta de cores ampliada e design pop, própria do campo cultural e dos movimentos de novo tipo. Esse alargamento do sensível, essa disputa dos modos de expressão se relaciona diretamente com a entrada de artistas, midialivristas, movimentos vindos das periferias, feministas, Pontos de Cultura, grupos do teatro, cinema, estudantes e secundaristas, grupos LGBT, uma frente da diversidade que ressignifica os movimentos tradicionais da esquerda.

Mais uma vez destacamos o papel de uma rede como a Mídia Ninja nessa expressão de uma frente da diversidade midiática e comportamental, culturalizada, e que se conecta diretamente e organicamente com a Frente Brasil Popular, com a Frente Povo Sem Medo e outras frentes emergentes.

O que mudou nessa nova ecologia midiática? Vimos a proliferação das redes, páginas e agentes do campo conservador, vimos a saída de cena dos coletivos críticos ao governo, diminuição da diversidade das páginas do contragolpe, e essa emergência de uma “frente da diversidade” expressa na Mídia Ninja, nos Jornalistas Livres, e em outras páginas posicionadas (Fórum, Jornal GGN etc.). Os movimentos e mídias do contragolpe produziram uma transversalidade decisiva para a reconfiguração de um campo das esquerdas, para além de golpistas e governistas. Por isso não estamos apenas falando do fim de um ciclo, mas do início de um outro.

IHU On-Line – Como fazer uma leitura equilibrada do que é noticiado em época de crise política, considerando essas duas fontes de informação?

Ivana Bentes – A diversidade da comunicação, a checagem dos fatos, a reputação das fontes, o confronto entre o que dizem as mídias corporativas e a ruidocracia das redes, a multiplicação das fontes de informação, a mobilidade subjetiva, que nos tira da zona de conforto e das polarizações, são decisivas para essa abertura para o contraditório e para o dissenso. Não se pode ficar em uma bolha, não podemos construir zonas apartadas do contraditório e nos instalarmos em quadrados mentais, entre iguais.
É preciso acompanhar e entender essa lógica do outro (mesmo os discursos fascistas), inclusive para escaparmos da sua lógica binária e identitária. Não se trata de “duas” fontes de informações, mas de diferentes visões de mundo, pressupostos, que precisamos compreender para nos posicionarmos e para combatê-los.

É preciso ter mobilidade subjetiva para entrar e sair dos lugares que determinaram para nós, mesmo se formos chamados de “governistas” ou de “golpistas”, essas determinações não esgotam o campo do possível e é importante ampliarmos as análises para entender sempre quem fala e de onde fala e para não ficarmos falando apenas entre nós.
Há uma quantidade enorme de palavras de ordem, comandos, ideias prontas que circulam em um momento de crise e de necessidade de criação de consensos. Esses consensos macros são importantes para se operacionalizar saídas da crise, para se agir, para se decidir, mas existe um campo de pensamento em que devemos cultivar o dissenso, senão o terreno vai ficando estéril e plano.

Uma das características dos campos progressistas é o direito ao dissenso, à ruidocracia. Acho fundamental deixarmos essa porta, por onde entra um vento fresco, aberta. É essa ecologia do dissenso, esse amor pelo contraditório, que nos permite uma leitura mais complexa da crise e da realidade.

IHU On-Line – É possível afirmar que, para a imprensa em geral, a grande crise que se vive é apenas política? Como analisa o espaço que vem sendo dado para a discussão acerca da crise econômica?

Ivana Bentes – Vemos que há uma grande distorção no noticiário sobre o impeachment, quando em nenhum momento são ouvidos os pobres, os ex-pobres, a chamada Classe C ou D, como se não tivessem o que dizer ou não tivessem discernimento sobre a crise. Eles não aparecem no noticiário. É como se a crise política fosse narrada do ponto de vista das classes médias e da elite política e financeira. Ou seja, uma crise de brancos bem posicionados (classe A e B) que rejeitam o projeto de país que coloca a redução da desigualdade social como prioritária.

O fato de os pobres pouco participarem das primeiras manifestações, contra ou a favor do impeachment (com exceção dos sem terra e sem teto ativos e na base da Frente Brasil Popular, contra o golpe), não significa falta de discernimento desses grupos sobre o impacto das políticas públicas sobre suas vidas. As pesquisas indicam o contrário, que as classes C e D percebem o rebatimento das decisões econômicas, dos programas sociais e de um Estado forte entre os batalhadores que ascenderam socialmente e economicamente nos últimos 13 anos. As insatisfações são justamente porque o governo Dilma não aprofundou os programas sociais!
A pesquisa feita por Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, em março de 2016, é esclarecedora dos significados da rejeição e decepção desses grupos (classes C, D e E) em relação ao governo Dilma. Meirelles qualifica os motivos tanto dos oposicionistas (os golpistas) quanto do que chama de os decepcionados (os pobres) com o atual governo.

São dados reveladores que qualificam a insatisfação. Das 2.005 pessoas entrevistadas em todo o Brasil sobre o papel do Estado, 38% (das classes A e B) defenderam um Estado próximo do mínimo e 62% (das classes C e D) defenderam um Estado vigoroso, que promova a igualdade social. Entre esses, os mais decepcionados são os mais pobres, 44%, mas nem por isso querem o impeachment: esperavam mais ações e políticas públicas contra as desigualdades. Os defensores do impeachment, que querem um Estado mínimo e defendem o golpe, sequer votaram em Dilma, somam 36% de insatisfação com o governo.

Rejeição do governo Dilma

Ou seja, a rejeição ao governo Dilma pelos mais pobres não leva ao impeachment, mas a uma correção de rumos. Exatamente como os decepcionados pela esquerda, que criticam o governo por não ter radicalizado seu projeto, por ter optado por um governo de coalizão pela direita, que agora mostra sua real face: destituir a presidente eleita, minar e desmontar programas sociais com uma pauta ultraliberal de Estado mínimo e retrocesso nos direitos trabalhistas, na pauta comportamental, em conquistas no campo simbólico, de afirmação da diversidade cultural. Retrocessos em série.

A mídia busca de todas as formas naturalizar o impeachment por uma crise de legitimidade política que surfa em uma insatisfação genérica à esquerda e à direita, mas que não tem o mesmo significado. Da mesma forma, atrela uma crise econômica, efeito de multifatores, a um só grupo político, a um partido e governo, faz o mesmo com a memética em torno da corrupção, uma narrativa impossível de sustentar depois da exposição das entranhas da Câmara dos Deputados e da própria lista da Lava Jato. A narrativa de uma saída salvadora, pelo golpe jurídico midiático, como um passe de mágica, se enfraqueceu.

A insatisfação genérica contra o governo Dilma ganha um sentido próximo de 2013, um “que se vayan todos”, mas que vai se qualificando e complexificando: barrar o impeachment, pressionar o governo para guinar à esquerda, rejeitar um governo Temer, pedir eleições gerais, ocupar as ruas com protestos em fluxo contínuo por uma reforma política. Aos poucos a crise se mostra “pequena” diante da profundidade das indignações. Esse horizonte utópico, que surfar sobre a crise, que tome impulso na energia propulsora das ruas e redes insurgentes, pode ser o efeito colateral mais desejável de tudo isso.

Infelizmente, há um outro efeito-colateral possível: uma reconfiguração pela extrema-direita, que deixa até um PSDB envergonhado (se isso é possível): retrocessos no campo do comportamento, da intolerância religiosa, o ódio às diferenças, o discurso fascistoide naturalizado como um dado da política, como um “nicho” de opinião, como algo aceitável em uma sociedade contemporânea.

IHU On-Line – A imprensa contribuiu ou não para a polarização da discussão política? De que modo? Pode nos dar exemplos?

Ivana Bentes – Sim, podemos comparar como a mídia tratou duas figuras femininas de forma diametralmente opostas e polarizadas, construindo, no caso de Dilma Rousseff, uma peça difamatória, com a capa da revista IstoÉ, que a definia como desequilibrada psicologicamente e sem condições para governar o país; e a peça publicitária da revista Veja, com o perfil da futura primeira-dama interina, Marcela Temer, “Bela, recatada e do lar”, comparável às figuras femininas que estrelam os comerciais de margarina.

Esse jornalismo de construção e demolição de figuras públicas chega ao seu paroxismo. No caso da capa da revista IstoÉ, a matéria produziu uma onda de indignação ao utilizar todos os estereótipos e adjetivos machistas e misóginos para desqualificar uma mulher na Presidência do país. Foi um ataque e desrespeito a todas as mulheres. A estratégia da revista é a mesma utilizada no vazamento contra Lula no Jornal Nacional, que expunha sua fala informal em telefonemas privados usados para desclassificá-lo moralmente. Mas com Dilma Rousseff foi ainda pior, mais escandaloso, sexista e intolerável, pois o texto ultrapassou qualquer ética jornalística, ao utilizar aspas sem nenhuma fonte identificada.

A revista IstoÉ construiu uma peça de desqualificação moral e psicológica da Presidente da República, que teria “perdido o equilíbrio e as condições emocionais para conduzir o país” e é descrita (sem fontes identificadas) como uma desequilibrada, histérica, furiosa, à beira de um ataque de nervos e propensa a atos violentos!

Dilma: da gerentona à mulher acuada

Trata-se de um ataque genérico de um jornalismo covarde (“fontes do Palácio do Planalto”), que usa aspas fantasmas (ninguém é citado!) para demolir sua reputação com base no ódio às mulheres que ocupam espaços de poder e nos clichês que descrevem uma mulher histérica, desequilibrada, destemperada, com “crises nervosas”, sendo “medicada” para aplacar seus rompantes e acessos de violência e histeria.

O texto é uma peça de como a mídia passa a usar da pessoalização, de argumentos e análises extrapolítica para demolir o caráter, construindo um personagem de ficção em que a Presidente é comparada com “Maria, a Louca”, uma “autista” com uma retórica “cretina” e cuja permanência significa uma ameaça de “volta do terror”(!).

Passam de um estereótipo, “a gerentona masculinizada”, para outro: o da mulher acuada e descontrolada que responde a um ataque político não com articulação, atos, ações e discursos, mas como uma mulher histérica e furiosa quebrando móveis. Os adjetivos utilizados para desqualificar a Presidente mulher fazem parte de um extenso vocabulário moral, científico, médico e psicanalítico de destituição do feminino como força política, como sujeito social e como modo de ser e existir: mulheres irascíveis, fora de si, vingativas, destemperadas e moralmente e psicologicamente condenáveis! “Elas” seriam incapazes de conduzir a política e estar no comando de um país.

O texto é uma peça para ser analisada pelos professores e estudantes de Comunicação, pelas feministas, pelos analistas políticos e simbólicos e por qualquer leitor crítico como a derrocada de tudo que entendemos como jornalismo. O “ódio-jornalismo” produzindo peças maniqueístas e dualistas, textos de ficção e novelização do real se volta agora contra todas as mulheres.

Contranarrativa: Dilma, a mulher honesta

Ao mesmo tempo, estamos vendo emergir uma contranarrativa nas ruas e na mídia internacional: a de Dilma, como uma mulher honesta e digna, com um passado de luta, sofrendo um ataque misógino e moral, sofrendo uma injustiça política (impeachment sem crime é golpe) em um ambiente extremamente hostil, machista e predador e em que uma figura histriônica e corrupta de um homem como Eduardo Cunha se mantém liderando a Câmara dos Deputados, comandando (com uma elite e mídia patriarcal) um golpe contra a Democracia no Brasil. Ou seja, os erros e acertos da presidente Dilma são políticos e nada têm a ver com o fato de ser mulher.
A construção de personagens e sua modulação midiática fica ainda mais explícita se compararmos esse perfil da presidente Dilma na IstoÉ com o perfil de Marcela Temer, virtual primeira-dama pós-golpe, apresentada a partir de todos os clichês normopatas, da dona de casa perfeita, “bela e recatada”. Uma moça bem comportada, submissa ao marido, Michel Temer, dedicada à vida doméstica e companheira ideal de um presidente da República e que encarnaria os valores de uma classe média conservadora e moralista, que preza a “moral e os bons costumes”.
Michel Temer, que entrará para história do Brasil e da política como um dos artífices de um golpe parlamentar (com parcos 2% das intenções de votos em eleições livres), dificilmente completará seu mandato, mas passa agora por uma “lavagem” simbólica, uma construção midiática que o posicione artificialmente como o “salvador da pátria”, transformando todas as suas fraquezas e ilegitimidade em “ativos” de uma transição política feita à força.

O casal Temer e Marcela, sem personalidade e genérico, responde hoje a esse ideal conservador de uma classe média que rejeita a política e os políticos e se identifica com estereótipos da sua própria classe social. Para substituir o casal Lula e Dilma, do operário e da ex-guerrilheira, eis que emerge uma família “respeitável”, mesmo que sem legitimidade social, rebaixando os horizontes políticos do país.
IHU On-Line – Que leitura é possível fazer da relação entre o Judiciário, a imprensa, o governo e o Legislativo a partir dos vazamentos de informações até chegar ao palco para as disputas político-midiáticas? Como fica a opinião pública no meio desse cenário?

Ivana Bentes – Vou citar aqui Giorgio Agamben quando observa que: “É inútil acreditar que se possa enfrentar a crise das nossas sociedades por meio da ação – certamente necessária – do poder Judiciário: uma crise que investe contra a legitimidade não pode ser resolvida apenas no plano do direito. A hipertrofia do direito, que pretende legislar sobre tudo, ao invés, trai, através de um excesso de legalidade formal, a perda de toda legitimidade substancial”. Estamos vendo um Judiciário se dobrar a uma operação midiática e a um grupo que quer transferir o poder sem passar por eleições, o que é muito grave.

O processo de impeachment (que deveria se restringir às pedaladas fiscais) foi atrelado midiaticamente à operação Lava Jato e foi alimentado por vazamentos seletivos, investigações seletivas e decisões seletivas. Toda uma série de fatos que nada tem a ver com o processo legal do impeachment. O processo produziu ainda outros efeitos colaterais, como, por exemplo, o impedimento de posse de Lula como Ministro da Casa Civil de Dilma.

Em todos esses fatos, o STF foi hiperativo ou por omissão ou por intervenção direta e rápida, os juízes foram colocados sob holofotes da mídia e reagiram conforme comandos midiático e de justiçamento em tempo real. Mas a velocidade do STF e suas decisões também foram seletivas. O fato gravíssimo de o STF não ter julgado a denúncia contra Eduardo Cunha e seu afastamento como presidente da Câmara dos Deputados é incompreensível neste contexto.

A Suprema Corte do Brasil, ao longo de mais de quatro meses decisivos, se omitiu em relação ao maior escândalo político do país, ao ignorar as recomendações do Ministério Público para afastar Eduardo Cunha do Parlamento. O STF está ativamente ignorando as provas que incriminam Eduardo Cunha, ignorando as contas em paraísos fiscais e todos os tipos de crimes arrolados contra o Deputado. O que é grave, quando sabemos que esse homem corrupto abriu o processo de impeachment contra uma Presidente da República, comandou a sessão que permitiu a admissibilidade do processo, manobrou e derrotou a Presidente na Câmara dos Deputados.

A blindagem midiática
Agora, depois da votação do impeachment no Senado, esse homem com uma folha corrida de crimes poderá ser o vice-presidente do país, ao lado de Michel Temer. É um escárnio do qual o STF será cúmplice.

Da mesma forma que a mídia blindou o juiz Sérgio Moro, tem blindado os juízes do STF e usado suas posturas magnânimas, declarações genéricas e abstratas, para embasar as teses do impeachment. Esse excesso de legalidade formal que condena a presidente Dilma por “pedaladas fiscais” que não implicam em crime de responsabilidade, essa mesma legalidade e formalidade não foi aplicada no caso de Eduardo Cunha.

Essa crise colocou a mídia corporativa definitivamente sob suspeita e em xeque, expôs a debilidade do sistema de representação (o horror diante dos Deputados Federais no Congresso) e também vai colocar em crise o Judiciário, pois serão cúmplices, por omissão ou ação, ao fim e ao cabo desse processo kafkiano, atravessado por golpes dentro do golpe, atravessado por fragilidades jurídicas, escândalos políticos e injustiças.

IHU On-Line – Como a senhora está analisando a crise política atual enquanto integrante, de certo modo, do governo?
Ivana Bentes – Tenho dificuldade com as patrulhas puristas de todos os lados. Governismo e petismo viraram xingamentos usados diariamente na mídia e em ambientes críticos para definir uma espécie de apoio incondicional e acrítico ao governo. Mas os processos em curso são bem mais complexos que isso, nem golpismo e nem governismo, duas caricaturas, dão conta da crise e das transformações em curso.

Afinal o que é hoje estar no governo? Qual a diferença de alguém que assume um cargo neste governo e os milhares de professores de uma universidade pública, ou profissionais liberais nos seus empregos, que estão debaixo de uma governabilidade de agências de fomento, cargos, disciplinas, hierarquias e, no caso dos pesquisadores universitários, condicionam até seus estilos de escrever? Todos bem controlados e assujeitados na sua produção fordista? Vivemos sob regimes de sujeição e de autonomia, não podemos ser simplistas. Temos que analisar os governos e também o Estado como redes heterogêneas e não de forma abstrata, para entendermos a logística e a forma de funcionamento, até para intervir neles.
Um governo é uma rede heterogênea, que tem dinâmicas as mais perversas e as mais virtuosas. Foi o que aprendi na Esplanada, onde temos limites para atuar, mas também um nível de autonomia muito grande, em certa medida bem maior que em um emprego assalariado clássico, com patrão, por exemplo.

A máquina que “funciona sozinha”
Minha experiência no Ministério da Cultura como Secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, na equipe do Ministro Juca Ferreira, foi descobrir a força da máquina do Estado para incidir sobre a vida de todos nós, e o fato de que há um descontrole dos seus agentes. O que significa que, mesmo em um governo progressista, nós somos uma minoria dentro de uma máquina que “funciona sozinha”. Ou seja, uma máquina que tem uma quantidade enorme de rotinas automatizadas e agentes, uma cultura corporativa fortíssima, que pode neutralizar qualquer tentativa de inovação e mudanças.

Se o MinC e o ministro Juca Ferreira buscaram ser os “ponta-esquerda” desse governo, com grande autonomia e coesão interna, também descobri rapidamente que o governo não controla as forças conservadoras que parasitaram o Estado, sejam as forças da “governabilidade”, sejam as forças que já estavam na máquina e que permanecerão nela depois da nossa saída. Isso é trágico, porque significa que mesmo um governo progressista é refém da máquina do Estado.

Mais do que isso, descobri, na prática, que o Estado brasileiro, uma máquina que serve há 400 anos a uma elite, se constituiu antes de um projeto de nação, ou seja, a norma, o cartório, a burocracia precedem e assujeitam as forças vivas da sociedade.
Empreendemos uma batalha contra o Estado dentro do Estado, só assim poderia resumir o que fizemos em um ano de gestão do Programa Cultura Viva, que trata dos Pontos de Cultura, uma política pública extraordinária, um momento de imaginação política, e que inverte essa lógica cartorial. Lutamos contra a cultura jurídica do Estado Brasileiro, uma das maiores forças regressivas e conservadoras da nossa sociedade! É esse mesmo Estado cartorial que criminaliza os Pontos de Cultura que irá tirar uma Presidente eleita do poder, sem qualquer crime!
No meio dessa crise, acabamos de ter uma vitória pública sobre essa irracionalidade do Estado, com a assinatura, pela presidente Dilma, do Decreto do MROSC (Marco Regulatório das Organizações Civis), que vai regular a relação do Estado com esse fora decisivo, as forças vivas da sociedade, uma relação que foi criminalizada pela mídia.

Disputa pela máquina estatal

Quando falamos em hackear o Estado, em fabular um Estado-Rede (de cogestão com a sociedade civil), era esse o nível de desafio: utilizar a mesma máquina de produzir desigualdades e violência, o mesmo sistema de (in)segurança pública que vitima as periferias, ou que saqueia os povos originários e ataca as minorias, para constituir uma poderosa rede de proteção contra os fascismos, uma máquina potencializadora de mundos. Isso não é nem ingenuidade, nem espontaneísmo! É o grande enfrentamento para quem está dentro do Estado. Foi o que buscamos fazer ao potencializarmos a Rede Cultura Viva, de empoderamento dos Pontos de Cultura, como unidades cogestoras das políticas culturais. Grupos que transformaram os territórios onde atuam.

Se não disputarmos essa máquina, se não desalojarmos os “donos” do Estado que o privatizaram, estaremos abrindo mão de outras vitórias públicas e de uma radicalização da democracia no Brasil. Neste momento, o que estamos disputando é justamente a máquina do Estado, que voltará às mãos de uma elite que estava “mal acomodada” mesmo em um governo de coalisão em que essa elite conservadora também deu as cartas. O que estamos vendo com o impeachment é uma tomada à força da máquina do Estado, um Estado que abrigou desde uma representante do agronegócio como Kátia Abreu até um humanista brilhante como Juca Ferreira, de um economista como Joaquim Levy a Paul Singer, o secretário utópico da Economia Solidária.
IHU On-Line – Quais os limites do atual governo? 

Ivana Bentes – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu seu projeto político de conciliação, uma política do ganha-ganha, que trouxe vantagens econômicas para banqueiros e pobres. O ciclo virtuoso do lulismo, que tirou 40 milhões da miséria e produziu mudanças radicais em diferentes campos, não enfrentou reformas estruturantes. Banqueiros e empresários também lucraram horrores, e privilégios, monopólios e esquemas de corrupção foram mantidos.

Não deixa de ser paradoxal que este ciclo esteja se esgotando, por muitos fatores, entre eles a crise econômica e a indignação política difusa contra a corrupção, para dar lugar a um discurso de classe, das elites, que voltam a afirmar sua índole separatista, não conciliatória. Seremos derrotados por uma luta de classes assumida, não pelos trabalhadores, mas pela elite!

A presidente Dilma acreditou que agradando e compondo com partidos fisiológicos e certa elite, colocando na geladeira os movimentos sociais e culturais, não encarando o monopólio das comunicações, sendo benevolente com novos e velhos coronéis, teria salvo-conduto para governar. Não foi isso que aconteceu. Aí está o vice-presidente do PMDB, Michel Temer, à frente do processo de impeachment, sem qualquer constrangimento.

Erros políticos

Os erros são muitos: não ter força para fazer a reforma política e ter que aceitar que partidos e parlamentares sigam reféns das empreiteiras que financiam as campanhas políticas de todos, não barrar Belo-Monte e minimizar o estrago do projeto desenvolvimentista para as populações indígenas e ribeirinhas, assinar a lei antiterrorismo, que poderá ser usada contra os movimentos sociais etc.
Mas não podemos falar apenas de erros do governo, as esquerdas também erraram. O MPL, que poderia ter saído como o maior movimento de juventude em 2013, saiu das ruas e se isolou, e ainda hostilizou os movimentos irmãos de novo tipo que surgiam. As esquerdas racharam desde 2013, com movimentos e grupos numa franca crise de protagonismo e, enfraquecidos e autofágicos, atiraram e criminalizaram parceiros do mesmo campo que estavam nas ruas e nas redes, como vimos acontecer em 2013 com o Fora do Eixo e Mídia Ninja, por exemplo, criminalizados pela esquerda e pela direita. Uma crise que chegou ao cúmulo nas eleições de 2014, com figuras icônicas das esquerdas apoiando Aécio Neves e todo um discurso de menosprezo e crítica ácida aos que vocalizaram um voto crítico ao governo Dilma, apostando em uma virada à esquerda, que não aconteceu e, pior do que isso, um golpe pela direita, desestabilizando todo o tabuleiro.
O que temos hoje é que, paradoxalmente, a crise atual reconfigurou esse campo minado das esquerdas. Estamos vendo emergir um novo pacto entre as esquerdas, com a Frente Brasil Popular, a Frente Povo sem Medo, com os movimentos culturais disputando o espaço político e mobilizados não simplesmente para barrar o impeachment, mas para um recomeço, um novo horizonte de pactuações.

IHU On-Line – A senhora fala na “área da cultura como linha de fuga”. O que quer dizer com isso? Gostaria que desenvolvesse essa ideia.
Ivana Bentes – O campo da cultura tem mudado não só a linguagem e a estética das ruas, mas disputado novas formas de fazer política, puxando ações de resistência a qualquer retrocesso e mesmo de crítica ao governo, que funcionam como um “Partido da Diversidade” ou um movimento social das culturas, culturalizando a política e politizando a cultura.

Por isso vimos explodir nas ruas, nas redes, nas timelines, nas manifestações, uma linguagem lúdica, com música, flores, balões, shows, batalhas de rimas, performances, que repudiam o ódio, a violência e a truculência real e simbólica, e apontam para um reencantamento da linguagem política, para além dos comícios tradicionais, para além dos carros de sons, para além dos palanques, slogans e bandeiras. Vimos o campo cultural e parte dos movimentos de periferia saindo de cima do muro e vindo em peso se juntar às vozes de resistência e criação contra o impeachment. Os atos do campo cultural estão sendo decisivos para essa disputa de imaginário.

Nesse sentido, é preciso colocar a política no rés do chão. A política foi sequestrada por uma casta. O ódio da política vem da sua separação das ruas, dos modos de ser e do cotidiano. Um dos mais incríveis efeitos colaterais dessa crise é ter colocado a política, o político na praça pública; o contragolpe tendo formado uma Frente da Diversidade, ampla, geral e irrestrita, conectando pontas, sujeitos, agentes, grupos, redes, separados muitas vezes não simplesmente pela “classe social”, mas pelos modos de estar no mundo. Por isso é decisiva a entrada da cultura nesses movimentos, ações, atos. Essa é a linha de fuga da cultura.

Conexão cultural com movimentos de base
A conexão da cultura com os movimentos de base dos sem terra, sem teto, estudantes, professores, juristas, advogados, parlamentares, comerciantes, médicos, significa falar não apenas de uma disputa de classe, mas também afirmar uma disputa de valores e comportamentos, de modos de ser. Foi uma vitória a entrada dos movimentos do funk, do hip hop e do carnaval nessa disputa.

Essa conexão entre os movimentos tradicionais, rurais, urbanos (MST, MTST, CUT, Frente Brasil Popular), que têm uma ampla e impressionante base social, com os movimentos culturais, inclusive com os liberais libertários (economicamente à direita e ideologicamente à esquerda), está sendo decisiva para barrar o impeachment e o golpe jurídico-midiático. A conexão dos campos das esquerdas e dos libertários de todos os matizes aponta para algo realmente novo, que não vimos nem em Junho de 2013.

A aposta na brutalidade e no devir-fascista da política, a polarização e o confronto, o discurso do Brasil “partido” é um erro e retrocesso sem tamanho. A Frente das Diversidades, essa rede de redes, rede de lutas, é a coisa mais importante que emergiu desse caos e dessa instabilidade. E não vai parar com o fim do processo de impeachment.

A crise política está abrindo um debate muito mais radical e amplo no Brasil. Não é só por uma presidente, nem por um partido ou contra o golpe, é contra o fascismo, o machismo, o racismo e a corrupção da própria democracia.

O devir-fascista

O devir-fascista se instala pela direita e pela esquerda, claro, sejamos críticos, mas não sejamos puristas e nem omissos. Tem sim uma indignação difusa, “contra tudo que está aí”, mas temos uma aliança espúria da Fiesp, movimentos de classe média, mídia, PSDB/PMDB/Rede, que viram no golpe jurídico-midiático a possibilidade de interromper um processo na marra, desqualificar um projeto de Brasil, destruir um grupo político, combatendo seletivamente a corrupção e instaurando um Estado de Exceção.

Dessa vez o campo da cultura vem para a rua para além do maniqueísmo e dos purismos, sem pudores ou “vergonha” de estar do lado de movimentos tradicionais, CUT, MST, MTST e junto com as frentes que emergiram, como a Frente Brasil Popular, Frente Brasil Sem Medo, movimentos feministas, negros, das periferias.

A cultura trabalha com o software, com linguagens, com o simbólico, mas sem base, sem hardware, sem gente na rua, sem organização, sem as tecnologias sociais dos movimentos tradicionais que mobilizam milhões, vira poeira, não tem força sozinha.
A crise de 2016 botou os filhos de Junho de 2013 (à direita e à esquerda) na rua, as mídias livres, os movimentos políticos de novo tipo, os movimentos e agentes culturais (teatro, cinema, circo, artes, música, escritores, audiovisual etc.) que se posicionam como força política. A cultura não é um “setor”, é um movimento! Por isso ela foge por todos os lugares que a tentam enquadrar. Foge, mas enquanto foge e escapa atira contra os fascismos.

IHU On-Line – Quais são as questões de fundo por trás desse estado de crise? Quais os riscos de não se compreender essas questões?

Ivana Bentes – Um dos maiores crimes que se comete neste momento no Brasil é o da judicialização e deslegitimação da política, a generalização despolitizante do “são todos iguais”, o mantra midiático da corrupção genérica corroendo qualquer crença, rebaixando os horizontes utópicos, consumindo o capital simbólico de um campo das esquerdas e além.

Torço para que esse ataque ao político saia pela culatra, reativando o que experimentamos nesse processo e nessa década de (des)encantamentos, em que fazer política, ser ativista, debater política era buscar incidir nela de modos tão novos e amplos: conferências, conselhos, fóruns, ocupações, manifestações, escrachos, disputa nas ruas, confrontos, debates.

A política se massificou e se ampliou tanto, que a paixão política, como estamos experimentando nas ruas e nas redes, pode se virar contra os arautos do fim da política, os que apostam em uma judicialização da política, os justiceiros de “mãos limpas” que estão cometendo o erro de atentar não apenas contra o Estado de Direito, mas contra o livre e legítimo direito de se acreditar!
“Eu perdi a fé, mas que enfermidade mais terrível”, como diz um personagem de Glauber Rocha. Um país de descrentes, um país de desencantados, é um país doente e boçal. Tenho visto em todo o Brasil, além do ódio da política, uma revolta contra esse abastardamento do político, da militância, do ativismo. Estão tentando produzir ódio, crise e instabilidade artificialmente. É bom lembrar que diante de uma crise artificialmente construída, existem sempre os que não têm mais nada a perder.

Crise criada

Criaram uma crise, produzida ou pelo menos acirrada, bombada, artificialmente e que teria como remédio a judicialização, o golpe jurídico-midiático, o golpe branco, que vem sendo produzido; não sabem que aqui do outro lado existe uma trincheira poderosa, disruptiva, explosiva, do verdadeiro caos. Tiraram o gênio do golpismo de dentro da garrafa sem o menor controle sobre o que pode acontecer, em um clima de real revolta e convulsão social contra tantas manobras e arbitrariedades.

IHU On-Line – A partir de todo esse cenário político que está posto, o que emerge como alternativa? Quais as saídas?

Ivana Bentes – Quem irá legitimar um governo Michel Temer/Eduardo Cunha? Como já disseram por aí, PMDB desembarcou na Presidência da República, mas os navios do desembarque serão queimados assim que um governo interino ilegítimo assumir a Presidência. Não terá volta à normalidade. Um governo ilegítimo, sem a validação das urnas, não vai apaziguar nada, ao contrário, aumenta a revolta contra “tudo que está aí” pela esquerda e pela direita. Ou seja, teremos crise e revolta com um eventual governo Temer e teremos indignados se o governo ficar e não der uma guinada de rumo. O que qualifica a democracia são os processos, as ruas, as novas institucionalidades, a hiperparticipação e cogestão política e o que pode surgir de novo dessa terra em transe. Pois não é só uma extrema-direita e um neoconservadorismo que se configurou, mas uma ampliação dos horizontes das esquerdas.

A política num só “golpe” envelheceu e embruteceu, mas também aponta para arranjos novos, novas alianças (a entrada da cultura, das periferias, de novos movimentos urbanos na disputa política) que estão emergindo, e vêm com toda uma vitalidade e frescor para desarrumar o arrumado.
 

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