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domingo, 17 de maio de 2026

Ciro Gomes: o homem que nunca coube em um partido, mas hoje se contenta em ser o "galinheiro" do bolsonarismo.


(no evento no Conjunto Ceará, Ciro evitou comentar sua aliança com Flávio Bolsonaro, preferiu como sempre destilar sua língua contra Lula, Elmano, Camilo e o próprio irmão - Cid, que um dia quase morreu assassinado) 

Quem conhece a trajetória política de Ciro Gomes e acompanha a política cearense há décadas sabe que sua recente aliança com setores da direita e da extrema-direita no Ceará não chega a ser exatamente uma surpresa.

Em 2021, escrevi no blog Olhos do Sertão sobre essa característica de Ciro de alternar ataques duros e gestos de aproximação política conforme as conveniências do momento. O episódio mais simbólico talvez tenha sido relatado pelo próprio Antônio Carlos Magalhães, o ACM, ao recordar que, depois de ser duramente criticado por Ciro, recebeu dele um gesto público de afago durante uma visita à Bahia, quando Ciro beijou sua mão para agradar os baianos.

O caso foi amplamente repercutido pela imprensa e ilustra um comportamento político marcado por alianças fluidas, rupturas frequentes e mudanças constantes de posicionamento. Reportagens publicadas pelo UOL Notícias e pelo Estadão resgataram episódios dessa relação ambígua entre ataques públicos e reaproximações políticas promovidas por Ciro ao longo da carreira.


"ACM é sujo como pau de galinheiro", afirma Ciro MÔNICA BERGAMO  da Reportagem Local - Folha de São Paulo - Junho de 1999.  

Resposta do ACM:  “Ciro Gomes é o próprio galinheiro” 

Ao longo da vida pública, Ciro transitou por diversos partidos e campos ideológicos. Nos anos 1990, quando estava no PSDB, adotava um discurso liberal alinhado ao receituário neoliberal predominante na época. Defendia privatizações, criticava bancos públicos, atacava movimentos grevistas e chegou a chamar Leonel Brizola de “suprassumo do atraso”. Mais tarde, aproximou-se do campo trabalhista e passou a construir uma imagem de nacional-desenvolvimentista. Essa capacidade de mudar de discurso conforme o contexto faz com que muitos enxerguem em Ciro uma figura politicamente moldável, capaz de se adaptar ao ambiente político que lhe seja mais conveniente.

Em 2010 fez o seguinte comentário sobreo Aécio, o político que um dia ameaçou matar o primo para evitar deleção. 

 


Na avaliação de muitos observadores da política brasileira, Ciro desperdiçou oportunidades importantes de chegar à Presidência da República. A primeira ocorreu durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Como ministro da Integração Nacional, Ciro desempenhava um papel relevante e tinha prestígio dentro do governo. Porém, em 2006, decidiu deixar o ministério para disputar mandato de deputado federal pelo Ceará. Segundo relatos políticos conhecidos da época, Lula teria sugerido que ele permanecesse no governo e escolhesse outro espaço na Esplanada, demonstrando apreço pessoal e político por ele. Ciro, entretanto, apostou em outro caminho político. Nos anos seguintes, enquanto Dilma Rousseff se consolidava como sucessora de Lula, Ciro acabou sem protagonismo nacional, passando pela Câmara Federal sem grande destaque legislativo.

A segunda grande oportunidade teria ocorrido em 2018, durante a prisão de Lula. Naquele momento, parte da esquerda buscava construir uma ampla frente política em defesa do ex-presidente. Muitos esperavam que Ciro assumisse um protagonismo maior naquele contexto, fortalecendo sua imagem junto ao eleitorado progressista. No entanto, preferiu manter distância do PT, afirmando que não queria ser “puxadinho” do partido. Ainda naquele processo eleitoral, surgiu a possibilidade de integrar uma composição com Lula, inclusive com a perspectiva de assumir a candidatura caso Lula fosse impedido juridicamente. Ciro recusou essa construção, lançou candidatura própria, perdeu a eleição e acabou sendo alvo de críticas ao viajar para Paris durante o segundo turno da disputa entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro.

Agora, diante do afastamento progressivo da esquerda e da deterioração de suas relações com o PT, Ciro parece buscar espaço junto à direita e ao bolsonarismo cearense. Em recentes eventos políticos, atacou duramente Lula, Elmano de Freitas, Camilo Santana e Cid Gomes, ao mesmo tempo em que se aproximou de nomes ligados ao bolsonarismo no Ceará, como Capitão Wagner e André Fernandes. Para críticos dessa aproximação, trata-se de uma aliança movida mais por ressentimento político e interesses eleitorais do que por coerência ideológica ou projeto de Estado.

Também pesa sobre esse movimento o silêncio de Ciro em relação a temas recentes envolvendo figuras da direita nacional, como denúncias relacionadas ao Banco Master e acusações dirigidas a aliados do bolsonarismo. Seus críticos argumentam que, enquanto faz ataques agressivos aos antigos aliados da esquerda, evita confrontar setores da direita com os quais busca aproximação política.

Em termos ideológicos, muitos avaliam que Ciro Gomes sempre foi uma figura política difícil de definir de maneira estável. Ao longo da carreira, transitou entre diferentes discursos, partidos e alianças, adaptando-se às circunstâncias políticas de cada momento. Para seus adversários, isso demonstra ausência de coerência programática; para seus apoiadores, revela pragmatismo e flexibilidade política. O fato é que sua trajetória continua marcada por movimentos bruscos, rupturas públicas e reaproximações inesperadas — entre ataques, afagos e mudanças de posição que acompanham toda a sua vida política.

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