Durante muito tempo,
o Nordeste foi tratado como resto. A história oficial do Brasil, escrita sob as
luzes do Sul e do Sudeste, tentou apagar as dores e as potências desse chão de
sol quente, suor e dignidade. Mas o Nordeste nunca foi terra de silêncio:
sempre foi território de resistência e de memória.
Minha
própria família é testemunha disso. Meu avô materno alguns e tios fugiram da seca, da fome e
da miséria. Foram em direção ao Maranhão, ao Tocantins, à Amazônia, como tantos
nordestinos que tomaram o rumo do mato, dos rios e das promessas. Uns voltaram.
Outros se perderam no mapa e na saudade.
Minha
avó materna morreu sem ver novamente o filho Emanuel. Ele partiu em busca de
uma vida melhor e nunca mais deu notícia. A perda em vida foi ferida que o
tempo não fechou. O nome dele era lembrado nas preces, como se ainda fosse
possível que um dia voltasse à Ilha do Poró,
em Jaguaruana, de onde saíram tantos Moreira, Barbosa, Oliveira
e Pereira, famílias inteiras que fugiram, não por escolha, mas
por necessidade.