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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Na Hora do Almoço

Ontem escrevi este texto para pessoas da família e foi na Hora do Almoço, já para chegar em casa.
Bom dia, família.
Trago sempre em minha gênese a memória e a história de nossa família, formada por sobreviventes de tempos tão difíceis. É uma pena que muitos se esqueçam do passado, de suas memórias e de suas histórias de vida.
No mestrado, meu professor de currículo nos desafiava a produzir textos relacionando a teoria ao contexto de nossas vidas, considerando as principais músicas que marcaram a todos nós. 
Trata-se de olhar para a história de um país construído e cimentado no extermínio do povo indígena, em mais de 300 anos de escravidão e sofrimento, e no suor do povo nordestino, que tantas vezes trabalhava apenas por um prato de comida e não tinha o que levar para casa no fim do dia.
A música "A Hora do Almoço" (1974), de nosso querido Belchior, talvez o cearense de maior intelectualidade musical e poética, nos faz mergulhar nessas lembranças.
Ela nos leva de volta ao momento em que nossas mães colocavam as refeições na mesa. Papai falava sobre isso ao lembrar da Vovó Isaura, e eu me lembro com carinho da minha mãe, Teresinha. Em 1974, eram tempos difíceis, de comida contada para uma mesa com nove pessoas.
Penso que esta eleição deveria ser uma escolha fácil se olharmos para as práticas, os discursos, asa nossas histórias de vida, as histórias de vida dos candidatos à luz dos Evangelhos e da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.
O próprio ministério de Jesus Cristo fez uma opção clara pelos pobres. Muitos parecem ter esquecido as Bem-Aventuranças, as declarações de bênção feitas por Jesus no Sermão da Montanha (Mateus 5:3-12), direcionadas em especial aos que choram e aos que têm fome e sede de justiça.
Neste contexto, em que muitos acham ser uma decisão complexa, enfrentamos talvez a eleição mais importante de toda a nossa história, uma escolha que definirá o futuro do país para os próximos 30 anos e que não terá volta.
Ao olhar para esse momento, vejo minha mãe lá nos anos 1970 nos chamando para a hora do almoço: "no fundo do prato, comida e tristeza". Não era apenas a minha mãe, mas a mãe de milhões de crianças por este país.
Na Bíblia, Jesus realiza o milagre da multiplicação dos pães e, naquele momento, chama a todos para a hora do almoço.
A letra de Belchior capta com precisão o contraste entre o ritual da refeição, que deveria ser de celebração e sustento e a tensão sufocante de nossas mães, de nossos pais, de nossos avós, de nós, na hora do almoço.
E eu choro quando penso sobre isso porque estávamos no..
No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato, comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala...
Lançada no álbum Apenas um Rapaz Latino-Americano, a canção é um retrato contundente deste medo social e emocional (a fome) vivida por muitas famílias brasileiras no período ditatorial, mas que permanece tristemente atual em milhões de lares.
A dor da "comida contada" e a presença do medo na rotina doméstica expõem como a escassez econômica atinge o âmago da dignidade humana e das relações familiares.
Essa memória nos remete a três aprendizados fundamentais:
O milagre da partilha porque nos Evangelhos, as narrativas da multiplicação dos pães e peixes (Marcos 6; Mateus 14) não são atos mágicos de fartura, mas convites à organização comunitária, à compaixão e à justiça social. Jesus atende primeiro à fome espiritual e depois à fome física da multidão, estabelecendo a dignidade material como premissa ética. Deste ato compartilhar os pães, temos a palavra companheiro, ou seja, aquele que compartilha o pão.
A pedagogia da escuta e da ação porque como destacava Paulo Freire, a "leitura do mundo" precede a leitura da palavra.
Reconhecer a tristeza no fundo do prato da mãe brasileira é o primeiro passo para a conscientização política e a transformação social.
Infelizmente, muitos esqueceram a tristeza no fundo dos pratos de suas mães e avós na hora do almoço… e muito não sofrem a tristeza de famílias neste momento na hora do almoço.
O imperativo do futuro: o verso final de Belchior
"Deixemos de coisas, cuidemos da vida / Senão chega a morte ou coisa parecida" atua como um chamado à urgência.
Superar o imobilismo e o medo torna-se uma necessidade de sobrevivência e de construção do amanhã.
E superar não somente o medo, mas a grande decisão que tomaremos no dia 04 de outubro: entre elas: decidir entre a escala 5 x 1 ou continuar com a escala 6 x 1;
A escala 5 x 1 nos dará, após 40 anos de trabalho, quase 06 anos de descanso e mais tempo com a família; decidir se seremos um país soberano ou uma colônia de exportação de riquezas para os EUA sob Trump; se queremos mais escolas e mais universidades; mais ciências, ou atraso e negação do avanço científico neste país.
Se queremos o Estado social ou estado desintegrado pelas políticas neoliberais da direita e extrema direita.
Na Hora do Almoço em 1974, as nossas mães não tinham escolhas, mas sabiam gerenciar a mesa posta mesmo diante da escassez do prado fundo, da comida e da tristeza;
Em 2026, as nossas mesas são fartas, creio aqui para uma boa parte das famílias neste momento, mas na Hora do Almoço para milhões de mais brasileiros, ainda tem No fundo do prato, comida e tristeza
Que Deus possa nos dar o discernimento da melhor escolha; e digo, se olharmos para o ministério da pedagogia da esperança de Jesus, a escolha parece fácil, mas me lembro que aquele povo teve uma escolha entre Jesus e Barrabás, entre um ser de luz e um ladrão; e no fim o povo escolheu em sua maioria um ladrão.
Mas está ha hora do almoço, a minha esposa me espera neste momento.
Bom almoço a todos vocês querido e queridas. Que Deus os abençoe sempre.
Imagem abaixo do ano de 1972.



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