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domingo, 21 de junho de 2026

Do Sertão à Cidade: memórias de 1970, sonhos e a Bodega do Seu Luís e Dona Teresinha


Era 1970. Ano de Copa do Mundo no México, de sonhos ainda sem nome, e de uma vida simples que marcaria para sempre a minha história.

Minha família era numerosa: nove pessoas ao todo — pai, mãe e filhos — vivendo na comunidade de Pitombeira, na Ilha do Poró. Ali, a vida era sustentada pela agricultura e pela criação de animais: galinhas, porcos, gado, capotes, perus, cabras e ovelhas. Era um cotidiano de trabalho duro, mas também de muita convivência com a natureza e com os ciclos da terra. 

Meu pai mantinha também uma pequena bodega. Pequena no tamanho, mas enorme na sua importância. Ela nos acompanhou por toda a vida e, mais tarde, se tornaria conhecida como a “bodega do Seu Luís e Dona Teresinha”, um lugar que atravessou gerações, alimentou famílias e ajudou a sustentar nossos estudos e nossa caminhada.

As majestosas carnaubeiras dominavam a paisagem do sertão. Ainda sinto o cheiro da palha molhada pelo orvalho da manhã, o vento balançando as copas, o brilho da cera de carnaúba — riqueza natural que fazia parte do nosso cotidiano. Muitas vezes, o fruto dessa palmeira servia até de alimento pela manhã. Havia também o canto dos pássaros, os banhos no rio, as longas caminhadas até a água, às vezes nos lombos de jumentos, com as cangalhas carregando os barris que levavam a água para manter a vida em casa.

Mas também havia o medo das noites, o desconhecido que habitava a escuridão do sertão.

Foi então que um dia minha mãe, olhando para o futuro dos filhos, disse ao meu pai, Seu Luís: “vamos embora para a cidade, aqui não temos como dar estudos aos nossos filhos”. E assim foi decidido o destino.

Um dia, estávamos com a mudança em cima de um caminhão — galinhas, pertences, o cachorro Jupi, e também nossos sonhos, todos juntos em direção a uma nova vida. Fomos para Russas.

Chegamos em fevereiro de 1970. E naquele mesmo ano, o Brasil se tornaria tricampeão mundial de futebol, no dia 21 de junho. A cidade vivia um clima especial. A bodega do meu pai era enfeitada com fotos e calendários da seleção campeã. As figurinhas dos álbuns circulavam pelas mãos das crianças, e tudo girava em torno do futebol.

Eu ainda lembro das conversas na bodega, da movimentação intensa no dia dos jogos. Após a conquista do título, quase toda a cidade fechou suas portas para comemorar. Mas meu pai manteve a bodega aberta. Dizia que não podia perder a oportunidade de trabalhar naquele momento tão cheio de gente e alegria. E assim, enquanto o Brasil celebrava, a bodega ficava lotada, cheia de vozes, risos, brindes e vida.

Na escola, cantávamos músicas da época, como “Criança feliz, quebrou o nariz…”, e brincávamos com os ídolos da seleção: Pelé, Tostão, Rivelino. Era um tempo em que o futebol parecia unir o país inteiro em uma só emoção.

A chegada em Russas foi também um recomeço. Para quem vinha da comunidade, ver carros nas ruas, o movimento da cidade, parecia coisa de outro mundo. Nossa família se manteve unida. Os irmãos foram para a escola. A bodega crescia. Muitas noites ainda eram iluminadas por lamparinas, e a luz elétrica falhava, mas isso não diminuía a vida: apenas mudava sua forma.

As ruas eram nosso quintal. A bola era parte essencial da infância. Jogávamos, corríamos, inventávamos jogos. Havia também a bolinha de gude, as brincadeiras simples, a imaginação sem limites. Muitas vezes diziam que, por termos vindo de Jaguaruana, só sabíamos “jogar pedras”, coisas de criança — e assim seguíamos, crescendo entre brincadeiras e desafios.

A televisão era um luxo raro. Apenas o enfermeiro Augusto tinha uma na rua, e era ali que, de vez em quando, assistíamos aos jogos da Copa. Nos demais momentos, o rádio de pilha era nosso companheiro constante, levando notícias, músicas e o futebol para dentro da nossa vida.

Assim fui crescendo: entre a rua, a escola, a bola e os livros. Uma infância marcada por sonhos simples, mas profundos. Uma infância que, mesmo com suas dificuldades, me ensinou o valor da família, do trabalho e da esperança.

E, olhando para trás, percebo que aquele tempo não foi apenas uma fase da vida. Foi a raiz de tudo o que sou

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