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domingo, 21 de junho de 2026

Copa de 1970, ditadura e Infância: memórias de um Brasil entre o Rádio, a rua, livros e o futebol

 




A Copa do Mundo de 1970, no México, foi um momento marcante não apenas no futebol, mas também no contexto histórico do Brasil, que vivia sob a ditadura militar. Hoje, consigo compreender que aquele período carregava tensões políticas profundas, e que a seleção brasileira acabou sendo, em certa medida, utilizada como símbolo de união nacional e também como distração do povo.

Mas, sendo criança, não havia em mim qualquer consciência desse cenário. Nossa vida era feita de escola, rua, bola e livros. O mundo se resumia ao que estava ao alcance dos olhos e do coração.

Naquela época, a Seleção Brasileira parecia estar acima de qualquer ideologia ou disputa política. Não se falava disso. O que existia era a admiração pura, quase mágica. Pelé estava em todos os lugares: nas ruas, nas escolas, nas conversas, nas figurinhas dos álbuns. Também Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho — nomes que faziam parte do imaginário coletivo de uma infância inteira.

 

Ainda guardo na memória a beleza dos lances. O primeiro gol de cabeça de Pelé contra a Itália, em que ele sobe com uma impulsão quase impossível, como se o corpo desafiasse o tempo e o espaço — um salto que parecia elétrico, suspenso no ar como um beija-flor. Um instante que ficou eternizado.

Depois veio o empate da Itália, após um erro de Clodoaldo, e o jogo seguiu intenso até o fim. No desfecho, uma jogada coletiva que parece poesia em movimento: Clodoaldo driblando quatro jogadores italianos, passando para Rivelino, que tocou para Jairzinho, que encontrou Pelé, que rolou para o capitão Carlos Alberto. O chute de primeira selou o que muitos consideram um dos gols mais belos e coletivos da história do futebol.

Antes disso, Gerson, o “canhotinha de ouro”, já havia marcado com um chute forte e preciso, e Jairzinho também deixou sua marca após passe de Pelé, construído a partir de uma visão brilhante de Gerson. Era um time que parecia jogar como uma só consciência.

E eu lembro do meu pai na bodega, acompanhando tudo pelo rádio, cercado de fregueses, com a vida acontecendo ao redor do futebol. As comemorações se misturavam ao trabalho, às conversas, às bebidas e à alegria daquele momento histórico.

Hoje, olhando para trás, percebo como aquele tempo era simultaneamente simples e complexo: uma infância inocente, mas inserida em um país em transformação.

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