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terça-feira, 14 de julho de 2026

O que a Espanha pode ensinar ao Brasil depois da Copa do Mundo de 2026?

Venceu o jogo coletivo da Espanha contra as individualidades francesas. Mais do que uma equipe repleta de talentos individuais, a seleção espanhola mostrou ser um verdadeiro time. Soube se impor durante toda a partida, não permitiu que a França desenvolvesse seu futebol e anulou completamente seus principais jogadores.

O grande destaque da partida, repito, foi o jogo coletivo: as linhas de marcação bem organizadas, a intensa movimentação, o toque de bola preciso e um meio de campo inteligente, capaz de controlar o ritmo da partida. A Espanha demonstrou que o futebol moderno é cada vez mais um esporte de organização, inteligência tática e disciplina coletiva. Seu treinador, Luis de la Fuente, colhe os frutos de muitos anos de trabalho nas categorias de base da Federação Espanhola, conduzindo à seleção principal uma geração formada dentro de uma mesma identidade de jogo.

Diante disso, surgem muitas perguntas sobre o fracasso da Seleção Brasileira. O Brasil levou 28 anos para conquistar sua primeira Copa do Mundo, em 1958. Agora, como o hexa não veio em 2026, também completaremos 28 anos sem levantar novamente a taça. Mais do que lamentar derrotas, precisamos refletir sobre quais lições podemos tirar da Copa de 2026 e dos fracassos acumulados nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, devemos observar atentamente o que fizeram as quatro seleções semifinalistas, especialmente a Espanha, campeã da Eurocopa de 2024, campeã olímpica em Paris 2024 e finalista da Copa do Mundo de 2026. Seu futebol baseia-se no controle da posse de bola, na qualidade técnica dos meio-campistas e na paciência para construir as jogadas. Seus jogadores raramente desperdiçam a posse, sabem acelerar ou cadenciar o jogo e, no momento certo, encontram um companheiro em condições de finalizar.

Mas talvez o maior ensinamento da Espanha esteja fora das quatro linhas. O sucesso dessa seleção não nasceu na preparação imediata para a Copa do Mundo. Foi resultado de um projeto construído ao longo de vários anos, articulando as categorias de base, a seleção olímpica e a seleção principal.

A medalha de prata conquistada em Tóquio, em 2021, não foi encarada como um fracasso. Ao contrário, representou uma etapa importante no amadurecimento de uma geração de atletas. Três anos depois, a Espanha conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Paris. Da equipe campeã olímpica de 2024, jogadores como Pau Cubarsí, Eric García, Marc Pubill, Álex Baena, Fermín López, Sergio Gómez e Abel Ruiz passaram a integrar o ciclo da seleção principal, ao lado de nomes já consolidados como Rodri, Pedri, Martín Zubimendi, Fabián Ruiz, Mikel Merino, Dani Olmo, Lamine Yamal, Nico Williams e Unai Simón. Não se trata apenas de coincidência de gerações, mas da continuidade de um modelo de formação e de uma identidade de jogo.

A comparação com o Brasil é inevitável.

Na final dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, o Brasil derrotou justamente a Espanha por 2 a 1 e conquistou a medalha de ouro. Naquele momento, muitos acreditavam que aquela geração seria a base da futura Seleção Brasileira. Entretanto, essa expectativa não se confirmou.

Alguns campeões olímpicos permaneceram importantes no ciclo seguinte, como Bruno Guimarães, que se consolidou como um dos principais meio-campistas da seleção; Gabriel Martinelli, presença constante nas convocações; e Matheus Cunha, que também integrou o grupo da Copa de 2026. Outros jogadores daquela conquista, porém, não conseguiram transformar o sucesso olímpico em protagonismo duradouro na seleção principal, seja por perda de espaço, lesões, mudanças de desempenho ou pelas constantes alterações de comando técnico.

A diferença entre Brasil e Espanha não está na qualidade individual dos atletas. O Brasil continua sendo um dos maiores celeiros de talentos do mundo. A diferença está no projeto esportivo.

Enquanto a Federação Espanhola integrou as categorias de base, a seleção olímpica e a seleção principal em torno de uma mesma filosofia de jogo, o Brasil continuou trocando treinadores, modificando esquemas táticos e iniciando praticamente um novo projeto a cada ciclo de Copa do Mundo.

A primeira lição, portanto, é que o Brasil precisa de um planejamento de longo prazo. Não devemos pensar apenas na Copa do Mundo de 2030, mas estruturar um projeto que alcance também a Copa de 2034. Nesse período teremos Copa América, Jogos Olímpicos e Eliminatórias, competições que devem fazer parte de um único processo de renovação.

Defendo que o treinador da Seleção Brasileira principal seja também o coordenador técnico de todas as seleções nacionais. Não significa dirigir todas as equipes, mas definir uma identidade de jogo, acompanhar o desenvolvimento dos jovens talentos e trabalhar de forma integrada com as categorias de base e com a seleção olímpica. Os Jogos Olímpicos deixariam de ser um objetivo isolado e passariam a representar uma etapa estratégica na formação da equipe que disputará as Copas do Mundo seguintes.

Também precisamos investir na formação de meio-campistas completos: jogadores capazes de iniciar a saída de bola com qualidade, realizar lançamentos precisos, organizar o jogo, criar infiltrações para os atacantes, controlar o ritmo das partidas e decidir em bolas paradas. Nos últimos anos, o Brasil continuou revelando grandes atacantes, mas perdeu parte da tradição de formar armadores do nível de Gérson, Rivellino, Zico, Falcão, Sócrates, Dunga, Rivaldo, Kaká ou Ronaldinho Gaúcho.

Outro ponto que considero fundamental é a formação de laterais. Durante décadas essa foi uma das maiores virtudes do futebol brasileiro. Hoje, entretanto, essa posição deixou de produzir atletas da mesma qualidade das gerações de Carlos Alberto Torres, Júnior, Branco, Cafu, Roberto Carlos, Maicon, Daniel Alves ou Marcelo.

Também defendo que sejam criadas condições para que nossos jovens permaneçam nos clubes brasileiros até, pelo menos, os 22 ou 23 anos. Essa permanência contribuiria para seu amadurecimento técnico, tático e físico, fortaleceria os clubes nacionais e permitiria que chegassem ao futebol europeu mais preparados, sem interromper precocemente seu processo de formação.

Talvez a principal lição da Copa do Mundo de 2026 seja esta: nenhuma seleção campeã nasce por acaso. Grandes equipes são construídas durante muitos anos. A Espanha não planejou apenas uma Copa do Mundo; planejou uma geração. Transformou a medalha de prata olímpica de 2021 em aprendizado, conquistou a Eurocopa de 2024, venceu os Jogos Olímpicos de Paris e chegou à Copa do Mundo com uma equipe madura, organizada e identificada com uma mesma filosofia de jogo.

O Brasil precisa decidir qual caminho deseja seguir. Continuaremos vivendo de talentos individuais, esperando que uma nova geração resolva nossos problemas, ou teremos coragem de construir um projeto nacional para o futebol brasileiro? Continuaremos trocando treinadores a cada insucesso ou criaremos uma política permanente para nossas seleções? Continuaremos comemorando títulos isolados nas categorias de base ou transformaremos essas conquistas em etapas de um processo que conduza à formação da Seleção principal?

Se quisermos voltar a conquistar uma Copa do Mundo, precisaremos olhar menos para a próxima convocação e muito mais para a próxima geração. O hexa não será fruto do acaso. Será consequência de planejamento, continuidade, competência na formação de jogadores e da coragem de aprender com quem hoje pratica o melhor futebol do mundo.

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