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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Uma crítica para entender o Brasil nas Relações Internacionais Contemporâneas.

 
por Fernando Horta
Dez enganos/incorreções que a maioria das pessoas fazem com relação as Relações Internacionais Contemporâneas:
1) "O Brasil está sendo atacado por causa do BRICS que ia questionar as relações de poder no mundo". Esta informação é um grande equívoco. Muita coisa se tem estudado sobre os BRICS e todos os estudos apontam para a imensa assimetria entre os participantes e que existem mais pontos de tensão do que de cooperação. China, Índia são muito maiores economicamente que o Brasil, não há comparação, e Rússia tem capacidade real de ação militar pelo Globo. Além disto nossas economias não são complementares, concorremos em muitas áreas e isto torna mais difícil uma parceria mais forte. No final de 2012, começou a circular a ideia (defendida em grande medida pela Rússia) da "desdolarização". Acabar com a hegemonia do dólar. O Brasil foi o primeiro país a ser contrário, exatamente porque suas reservas são em dólar. A China também tem este problema embora entenda estas reservas mais como um ativo de segurança do que econômico. Os BRICS são muito mais uma vontade política de alguns atores do que uma realidade.

 
2) "Estamos num mundo multipolar e isto incomoda o "império" americano". Esta frase encerra um erro e uma contradição. "Mutipolaridade" e "império" não parecem fazer sentido na mesma frase. E esta "multipolaridade" não faz sentido, especialmente para as teorias críticas de esquerda. O que vemos é a mesma capacidade de ação internacional da Guerra Fria. Os mesmos atores e nenhum novo. Olhe para a Síria e veja EUA e Rússia. Quando muito uma coligação de Inglaterra, França e a China mantendo-se circunscrita à sua região. De fato, a ideia de "multipolaridade" é muito mais um sonho do que uma realidade, ainda mais quando as questões econômicas são colocadas em um contexto de política internacional. Nem Alemanha e Japão conseguiram efetivas linhas de agência internacional que não existissem na Guerra Fria. Não nos enganemos, o mundo está mudando e se tornando cada vez mais igual ao que era.
3) "O mundo já saiu da crise e o Brasil está assim por questões internas". Se é verdade que as escolhas domésticas jogaram um papel importante em nossa crise, não há ainda consenso sobre o peso dos dois cenários. O FMI mesmo reconheceu que a crise ainda não havia sido superada em termos internacionais, prediz que o "mundo crescerá mais ou menos 3,5% este ano". Neste argumento os liberais se seguram, mas se você tirar China, Índia e Indonésia da conta a média mundial quase não fica positiva. A verdade é que o impacto da redução da voracidade da China é grande em nossa economia e com as medidas de Temer o mercado interno não está conseguindo tomar o espaço da demanda internacional, ainda que apenas uma parte.
4) "O Brasil é o país que menos cresceu na América, se comparado com seus vizinhos". Os dados sem contexto apontam para algo em torno desta afirmativa. Bolívia, Peru, Equador e Chile cresceram muito forte até 2013 e em seguida tiveram um momento de diminuição de ritmo e hoje os países que mais crescem são o Panamá, Nicarágua e República Dominicana. Apenas na nominata dos que mais crescem é possível ver o problema da afirmativa. Não se pode deixar de perceber que a economia brasileira, maior e mais complexa não pode ser comparada desta forma rasa com seus vizinhos. Os quatro maiores produtos de exportação do Chile, por exemplo, são ligados ao cobre a subida de preço internacional deste produto tem um efeito dramático para a sua economia. E acaba por mascarar índices tomados apenas pelos seus números. Comparar o Brasil em termos objetivos é sempre problemático.
5) "Não faz diferença na política externa se forem republicanos ou democratas. Tanto faz Trump ou Hillary". Esta afirmativa encerra uma generalização indevida. Historicamente os republicanos são mais pragmáticos e menos dispostos a gastar enormes somas no cenário internacional para ganhos "não materiais". Se os republicanos tiverem que colocar a 4a frota para tomar o pré-sal brasileiro lhes parece uma ação mais "racional" e possível de receber apoio político do que gastar milhões de dólares em "propagandas e informações" na região para tentar o mesmo fim. Especialmente com Trump, estas ações mais "soft" terão vida dura. Uma política externa assertiva tem chance de ser muito mais efetiva com republicanos do que com democratas. Não é à toa que Lula e Bush acabaram se entendendo de forma muito mais próxima do que Lula e Clinton. Há sim diferença entre os dois partidos, embora nenhum deles vá deixar de ser norte-americano e lutar para manter sua superioridade no mundo.
6) "Putin e os russos lutam pelos ideais da esquerda e, portanto, são nossos aliados". Putin é o restaurador da Rússia pós-1991 e isto não é pouca coisa. Mas ele o faz isto internamente com valores muito diferentes do que a esquerda (especialmente a brasileira) gostaria que fossem. Putin incentiva o combate às agendas LGBT, trabalha pela diminuição dos direitos das mulheres (este ano foi assinada a primeira lei que reduz a legalidade das possibilidades de aborto, um direito desde 1917) e pelo aumento da força política da igreja conservadora. Não é pouca coisa, se você levar em conta o aumento do aparato de controle do Estado russo durante o período Putin. Internacionalmente ele ataca a hegemonia americana, mas isto não pode apagar o fato de que, internamente, Putin se aproxima muito da direita conservadora no Brasil. O governante russo tem léguas de distância intelectual dos obtusos políticos conservadores brasileiros, mas isto é um fator de ainda mais preocupação dada a sua postura política.
7) "Erdogan lutou contra o império americano e venceu o golpe que se organizava na Turquia. Um exemplo!". A política turca é bastante complexa para nós ocidentais. São muitas e influentes variáveis. Não está claro quem deu o golpe (inclusive existe a possibilidade de ser auto-inflingido para que Erdogan tivesse poder para fechar o país, como fez) ou de que forma Erdogan resistiu. De novo, internamente o regime de Erdogan não preza pelas liberdades individuais ou o respeito às leis republicanas. Desde o golpe ele já destituiu mais de 2,5 mil juízes e esta não pode ser uma informação tomada de forma positiva. As perseguições políticas na Turquia aumentaram e muito com Erdogan e não se pode fazer análise simplista achando que o regime persegue para "defender a liberdade da turquia". Em abril deste ano houve um referendo para aumentar os poderes do presidente e ele venceu por 51-49. Números apertados para quem quer ter seus poderes aumentados.
8) "Maduro está dando um golpe na Venezuela e massacrando a população". É normalmente a narrativa da grande mídia sobre nosso vizinho. E ela está errada. A verdade é que Maduro foi eleito em 2013 de forma democrática e que ele tem afirmado que novas eleições ocorrerão em 2018 (como prevê a lei venezuelana). Neste meio tempo, quando a oposição ganhou maioria no parlamento os primeiros seis meses viram mais de 50 projetos tentando reduzir o tempo, os direitos e até retirar do poder Maduro. Todos os projetos flagrantemente inconstitucionais e tentavam soprepor o legislativo ao executivo (como foi feito no Brasil). Lá a suprema corte agiu de forma a preservar a constituição. As acusações de que a suprema corte é "bolivariana" são frágeis vindas de quem defende as atitudes de Gilmar Mendes no Brasil. O fato é que a suprema corte seguiu a constituição, inclusive quando deu ordem para fechar o parlamento no início deste ano. Havia uma discussão sobre fraude eleitoral em 3 políticos e a suprema corte ordenou que não se desse posse a eles. O congresso desobedeceu a ordem jurídica (como renan e tantos outros) só que lá o exército está do lado do judiciário e este tem falado. É possível criticar políticamente o judiciário venezuelano, mas a pessoa que o faz e aceita o que o STF brasileiro faz não merece crédito. A crítica à corte venezuelana só pode ser aceita com conhecimento da constituição e leis de lá, de outra forma é casuísmo.
9) "Maduro governa numa democracia plena atacada pelas forças americanas". Se a afirmativa anterior era errada, esta também é. No mundo real as coisas não são "preto e branco" ou "democracia e ditadura". Estes conceitos extremos sequer podem ser aceitos como existentes em algum caso. A verdade é que o nível de participação e oposição que Chavez fazia imprimir na Venezuela não é o mesmo de Maduro. Pode-se tentar entender os motivos desta diferença, mas o fato é que a oposição cresceu e tem encontrado da parte do governo fortes ações de repressão. Fica difícil estabelecer "quem começou primeiro" já que a própria oposição também se utiliza da violência em vários níveis. O que parece é que governo e oposição estão se distanciando do que poderíamos reconhecer por "democracia". Atribuir causa específica a este processo é um reducionismo que serve apenas à propaganda política de determinados grupos lá e aqui.
10) "Vivemos numa Nova Guerra Fria". De todas as afirmativas talvez esta seja a mais errada e perigosa. Não é verdade que vivemos uma "nova guerra fria" porque "guerra fria" não é somente uma rivalidade entre dois "polos" que se distinguem por modos políticos e econômicos. É preciso que os atores queiram rivalizar e se coloquem na perigosas posição de antípodas. A China tem evitado esta posição sempre que pode e os EUA - apesar de vozes estridentes na academia e governo - também tem evitado esta posição. A realidade é que o planeta não suportaria uma nova guerra fria. Os níveis de produção e desperdício necessários para manter a corrida armamentista e a disputa ideológica levariam o nosso planeta ao colapso. O que vivemos é uma potência que já viu dias melhores (EUA) tentando reconstruir o mundo em que ela se sentia segura (o mundo bipolar) e que acreditava compreender. Barack Obama foi um ponto fora da curva nos governos norte-americanos, na medida que restringiu a ação americana a novas áreas ou a criação de outras animosidades. Esperamos que Trump siga nesta mesma senda. Muitas vezes, os homens, perseguindo um objetivo acabam alcançando situações que não conseguem controlar. Esta parce ser a tônica da nossa história.

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