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terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Enterro de José Dirceu


Hildegard Angel enterra José Dirceu
17/9/2012

Hildegard Angel

Neste momento que vive nosso país, eis aqui uma adaptação livre por esta jornalista do magnífico discurso de Marco Antônio, extraído da peça “Júlio César”, de William Shakespeare, e também cometo a ousadia de interpretar o texto, matando as saudades de meus velhos tempos de atriz. Quem preferir ler do que assistir ao desempenho neste vídeo caseiro, o texto está abaixo.
Beijos, Hilde

“Amigos, brasileiros, meus compatriotas, escutem-me. Vim para enterrar José Dirceu, não para louvá-lo. O bem que se faz é enterrado junto com os nossos ossos, que seja assim com Dirceu. O nobre ministro Joaquim Barbosa disse a vocês que José Dirceu era ambicioso. E, se é verdade que era, a falta era muito grave, e José Dirceu pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos do Relator e dos demais Ministros do Supremo Tribunal Federal, sem esquecer de citar o nobre Procurador Geral da República. Pois Joaquim Barbosa é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados.

Venho para falar neste emblemático “funeral” de José Dirceu. Ele era meu amigo, fiel e justo comigo. Mas Joaquim Barbosa diz que ele era ambicioso. E o ministro Barbosa é um homem honrado.

José Dirceu arriscou sua juventude, os anos mais vigorosos de sua vida, e dedicou todos os seus sonhos a tentar libertar o Brasil de uma ditadura sanguinária. Isto seria uma atitude indigna e ambiciosa de Dirceu? Quando o povo sofria oprimido, Dirceu se solidarizava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Barbosa diz que Dirceu era ambicioso. E Barbosa é um homem honrado.

Vocês todos souberam que, travando seu bom combate, por três vezes, Dirceu teve que se despojar de tudo, de seu país, de sua família, de seu rosto e até de renunciar à sua identidade. Passou a se chamar Daniel, teve que mudar o nome para Carlos Henrique. 

Enfrentou o bisturi do cirurgião, desfigurando a própria face. Escondeu da mulher que amava, mãe de seus filhos, o seu passado, para proteger a família do perigo de saber quem de fato ele era, clandestino que estava em seu próprio país. Em nome de uma ideologia, ousou viver e sobreviver despojado dos mais básicos elementos essenciais à auto-estima de um indivíduo. 

E se despojou de um ministério poderoso, de um governo que ajudou a eleger, para travar nova luta. Seria este um homem ambicioso? Mas Barbosa diz que ele era ambicioso, e Barbosa, todos sabemos, é um homem honrado.
 
Eu não falo aqui para discordar do que o digno ministro Barbosa falou. Mas eu tenho que falar daquilo que eu sei. Muitos de vocês, se não amaram Dirceu, pelo menos o admiraram, e tinham razões para isso. 

Qual a razão que os impede agora de homenageá-lo na morte?
 
Ontem, a palavra deste homem seria capaz de enfrentar o mundo, agora, está aqui, desmoralizada, morta. E um homem de palavra morta é um homem morto.
 
Ah! Se eu estivesse mal intencionada, disposta a aliciar os seus corações e mentes à revolta, eu falaria mal de Barbosa e de Marco Aurélio ou de Mendes e de Weber ou de Celso e Lucia e Britto, os quais, como sabem, são homens e mulheres honrados. Não vou falar mal deles. Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens e mulheres honrados.
 
Mas eis aqui um email de Dirceu! Eu o encontrei em minha caixa de correio. É sua carta-testamento. 

Quando as pessoas do povo a lerem (porque, perdoem-me, eu não pretendo lê-la), elas se lançarão para beijarem os ferimentos de Dirceu e molhar os lenços no seu sangue.
 
O quê? Vocês exigem que eu a leia? Tenham paciência, amigos, mas eu não devo fazer isso. Vocês não são de madeira ou de ferro e, sim, humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de Dirceu vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de Dirceu! Pois se souberem… o que vai acontecer?
 
Continuam a insistir? Então vocês vão me obrigar a ler o email-testamento do Zé? Façam então um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes Dirceu morto, aquele que escreveu este testamento.
 
Brasileiros. Se vocês têm lágrimas, preparem-se para despejá-las. Vocês todos conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a sentença do ministro Barbosa penetrou. Através deste outro rasgão, o ministro Fux, tão querido de Dirceu, proferiu o seu voto e, quando ele o concluiu, vejam como o sangue de Dirceu escorreu do ferimento. E oh! Deuses, que golpe brutal para Dirceu, que tanto o admirava! Foi neste momento que seu coração parou. Então eu e vocês e todos nós também tombamos.
 
Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas. Choram ao ver o manto de José Dirceu despedaçado.
 
Bons amigos, queridos amigos, não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são sábios e honrados e já apresentaram a vocês as suas ponderações, queixas e razões. Eu não vim para agitar seus corações. Eu não sou uma boa oradora, como o notável ministro Joaquim Barbosa. Sou apenas uma mulher simples e direta, que ama os seus amigos.
Mas já que tanto insistem, revelo enfim o conteúdo da carta-testamento assinada por Dirceu.
 
Para vocês, ele deixou todos os seus sonhos de um Brasil mais cidadão, com menos desigualdades, um Brasil nacional, dono de seu nariz, e para os herdeiros de vocês e para sempre.
 
Este era José Dirceu. Quando aparecerá outro como ele?”

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